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Full text of "Escritoras doutros tempos; extratos das obras de Violante do Ceo, Maria do Ceo e Madalena da Gloria"

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Mendes dos Remédios, Joaquim 

Escritoras doutros 
tempos 




Subsídios para o estudo da História da Literatura Portuguesa 

XVI 



ESCRITORAS . 
DOUTROS TEMPOS 



EXTRATOS DAS OBRAS 

DE VIOLANTE DO CEO, MARIA DO CEO 

E MADALENA DA GLORIA 



Com revisão e prefácio de Mendes dos Remédios 



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COIMBRA " 

FTiANÇA GAMADO -EDITOll 
1914 



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ESCRITORAS 
DOUTROS TEMPOS 



Composto e impresso na^Typographia França Amado, 
Rua Ferreira Borges, n5 — Coimbra. 



Subsídios para o estudo da História da Literatura Portuguesa 

XVI 



ESCRITORAS 
DOUTROS TEMPOS 



EXTRATOS DAS OBRAS 

DE VIOLANTE DO CEO, MARIA DO CEO 

E MADALENA DA GLORIA 



Com revisão e prefácio de Mendes dos Remédios 



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COIMBRA 

FINANÇA qAMADO - EDITOII 
1914 



fWR 1 I t968 

y/53 



A QUEM LER 



Um dos capítulos menos bem conhecidos ou, 
não sei se devera dizer, quase inteiramente 
desconhecidos, da nossa história literária e 
bibliográfica é o que se refere às tendências 
avassaladoras e predominantes dum misticismo 
religioso, alto, vago, indeciso, arrastando como 
que num torvelinho, onde facilmente se não 
divisam os objectos, muitas inteligências per- 
feitas e robustas. 

Quase sempre o sentimento que domina 
quem se abeira desse ramo literário é o enfado 
e o aborrecimento. Escritas em espanhol, sem 
base humana que as corporalize e perfume, as 
obras que representam essas tendências dam 
a impressão do vazio, da sonoridade oca de 
palavras e nada mais. 

O primeiro sentimento é, pois, afasta las, 
esquecê-las, pô las inteiramente de lado e até, 
se a ocasião se oferecer propícia, lançá-las sem 
dó nem piedade á fome devoradora do fogo. 

Entretanto se se conseguir dominar este 
natural assomo de tédio, se um pensamento 
persistente de estudo e de meditação triunfar 
da cómoda inclinação, que nos leva a repelir 
tudo o que nos mortifica ou simplesmente nos 



VI Escritoras doutros tempos 



não agrada, a fortuna quer muitas vezes com- 
pensar nos deparando nos fartos motivos de 
inteira satisfação, de completo júbilo, de deli- 
cioso gozo espiritual. 

Das cinzas esquecidas e frias levanta-se, ao 
toque de varinha da nossa imaginação, uma 
faúlha pequenina, etérea e luminosa, restos 
duma alma que ardeu em inspiração sublime. 
Por deante de nós perpassam sombras de mon- 
jas envoltas nos seus veos brancos murmurando 
orações, figuras esbeltas umas, radiantes ainda 
de todo o perfume da mocidade, outras já 
maceradas e tristes aioelhadas a mais de meio 
dos degraos dos túmulos, onde tranquilamente 
dormirão o sono eterno. Pobres molheres, 
todas simpáticas nas suas crenças, nas suas 
ilusÕis, nos seus sonhos ! 

Os escritos delas atraíram-me sempre e é 
com respeito, ia dizer, com piedade, que folheio 
as páginas esquecidas de tantos livros hoje 
perdidos nos desvãos escuros das bibliotecas, 
sem mão amiga que os tateie, sem olhos bené- 
volos que os contemplem. Ha lá dentro almas 
que sofreram e se torturaram por um ideal 
inapreensivel, que elas tomaram como seu guia 
e sua estrela do norte. Viajaram neste mundo 
aflitas, cercadas de torturas físicas e morais, 
em demanda duma Jerusalém celeste, com os 
olhos sempre postos ao longe, insensíveis aos 
espinhos que lhes dilaceravam os pés. 

Quem sabe, de resto, que amargo sofrimento 
da vida as lançou nesse caminho obrigando-as 
a ir pedir ao silencio e ao refúgio dum claustro 
a paz e o doce conforto, que cá fora o mundo 
impenitente e descaroavel lhes negou ? 

As minhas divagações por essa literatura 
morta tinham-me de há muito deparado um 
nome que me prendera a atenção — o de 



A quem lêr VII 



Maria do Ceo, que quase em todas as suas 
obras aparece com o criptónimo de Marina 
Clemência. 

Ha nomes sugestivos e quando eles se ligam 
a situações sociais que por si despertam igual-- 
mente vária matéria de ponderações, já suaves, 
já dolorosas, há aí mais um élo misterioso e 
indefinível, sem dúvida, mas nem por isso 
menos verdadeiro, nem menos imperioso, que 
nos obriga a pensar, a meditar neles. 

O nome de Maria do Ceo anda associado a 
um outro, que representa igualmente uma ilus- 
tre figura de molher e de escritora, a sua con- 
temporânea Madalena da Gloria ou como nas 
letras é conhecida, Leonarda Gil da Gama. 

Para um confronto que decerto ocorreria a 
quem percorresse esta nossa pequenina cole- 
ctânea um outro nome acudia immediatamente 
à memória — o de Violante do Ceo, das três 
a melhor conhecida, senão a única, pelo menos, 
em nossos dias. Tal foi a génese deste volu- 
minho da minha colecção — Subsídios para o 
estudo da historia da literatura portuguesa — 
enfeixar num só ramalhete algumas das flores 
esquisitas que estes três talentos femininos pro- 
duziram. « Escritoras doutros tempos » poderia 
englobar maior número de trechos quer em 
prosa, quer em verso, mas quis excluir em 
princípio a lingoa espanhola e nessa língoa 
estão redigidas exclusivamente as obras de 
muitas das nossas escritoras do século a que 
pertencem as das três autoras de que nos 
ocupamos. Apenas fiz excepção para dous 
trechos capactensticos e só duma delas. 

Por outro lado os vicios duma tendência 
literária, como era o cultismo, estenderam-se 
larga e profundamente, inutilizando quase por 
completo a inspiração que de si era vigorosa 



VIII Escritoras doutros tempos 



muitas vezes e até pujante, sempre, porém, 
mais ou menos monótona. Dai a restrição da 
escolha. 

Que pena que se esterilizassem tantos e tam 
formosos talentos femininos nessas paragens 
para onde as arrastou Luís de Gongora, o 
« génio raro e sem segundo », como o ape- 
lidou Cervantes ! 

António dos Reis no seu Enthusiasmus Poe- 
ticus dedicado a D. João V deante do grande 
número de molheres que ilustraram a Litera- 
tura portuguesa exclama : 

Nec muliebre genus deerat, nam pluriraa Mentis 
Femina, mixta choro ÍVlusarum, excelsa tenebat. 

e não querendo deixá-las esquecidas, vai con- 
cisa mas eloquentemente apontando os nomes 
de muitas, como 

Laura Mauricia, criptónimo de D Leonor 
de Meneses, condessa de Serem e de Atouguia, 
autora de El desdeíiado mas firme, novela em 
prosa e verso, Lisboa. lóOD. 

D. Beaíri^ da Silva e Sousa, de Torres- 
Novas, autora de comédias e livros ascéticos, 
que A. dos Reis declara não ter podido ver. 

Bernarda Ferreira de Lacerda, a autora da 
Hespaíia libertada, i.* p. 1618, 2.'' 1673 e das 
Soledades do Buçaco, 1634 e do Ca:^ador dei 
Cielo, Comedia de S. Eustachio e outras que 
ficaram inéditas. 

Maria de Mesquita Pimentel, da ordem de 
S. Bento, autora da Infância de Cristo e 
Triunfo do Dwino Amor, Lisboa^i 1639. 

D. Mariana de Luna, de Coimbra, que 
escreveu o Ramilhete de flores á felicidade 
deste Reino na sua milagrosa restauração, 
Lisboa, 1642. 



A quem ler IX 

Cecilia do Espirito Santo, da Ordem de 
S. Francisco, que deixou : Colloquios com 
Cristo crucijicado de hum peccador arrepen- 
dido, Lisboa, 1688. 

D. Joana, Condessa da Ericeira, mãi do 
D. Francisco Xavier de Meneses, o ilustre 
Conde do mesmo nome, a qual publicou sob o 
criptónimo de Apolinário de Almada: Desper- 
tador dei alma ai sueno de la vida, Lisboa, 
1695. 

Helena da Silva, da Ordem de S. Bernardo 
no Mosteiro de Celas de Coimbra, autora de 
La Passion de Cristo nueslro Seíior. 

Joana Magdalena de Castro, de Lisboa, 
Isabel de Castro e Andrade, contemporânea 
de Luís de Camões ; D. Helena da Pa-^, S<>ror 
Antónia de S. Caetano; Paula de Sá e enfim 
Isabel Corrêa, autora de El Pastor Fido em 
verso Espanol, Amsterdam, onde viveu, 1692. 

A serie é, como se vê, extensa e abre por 
Joana Va^ 

Vasia prima sedet Lysiae clarissimus Aulae 
Splendor, operta comas lauri viridante corona. 



Nem podiam ficar esquecidos os nomes de 
Violante do Ceo e de Maria do Ceo, como 
abaixo veremos, faltando o de Madalena da 
Gloria, que por qualquer circunstância lhe não 
ocorreu. 



X Escritoras doutros tempos 



VIOLANTE DO CEO 

O elogio que a esta escritora consagrou no 
seu Enthusiasmus Poeíicus António dos Reis 
é como segue : 

. . .Uranies lateri comes assidet Urhis 
Splendor Ulysseae, celebris Violantia, Coeli 
Delicium, terraeque .simui, qua dulcius ille, 
Qui tulit auritos scopulos in moenia plectro, 
Non Cfcinii ; crines laefis^ima turba sororum 
Candenti cinxere rosa ; primnmque vocari 
Non decimam, Montis statuerunt ordine Musam. 



versos que na tradução de Sousa Caria dizem : 

O lado de Urania afermosea 

O esplendor da cidade de Uiyssea, 

A celehre Violante, 

A delicia do Oo, da terra o gosto ; 

Não cantou mais suave ou elegante 

Que ebte feliz composto, 

EsSH que na erecção dos muros ledos. 

Fez do seu plectro ouvintes os penedos. 

Contente a hela turba sonorosa, 

Os cabellos lhe ornou de branca rosa, 

Determinando a aclame a voz ligeira. 

Decima Musa não, mas a primeira (i). 

Não extranhe o leitor tam hiperbólicos concei- 
tos. Em latim ou em português, em espanhol 
ou em italiano, as palavras tinham nessa época 

(i) Cfr. Imagens conccituosas dos Eptgrammas do 
R P M Antomo dos Rcys traduzidas do metro latino 
ao metro lusitano Rpflexoens sobre algumas das suas 
arguctas que em dous tomos offerece ao Ex."" Senhor 
Dom Jayme, . . João de Sousa Cana, Lisboa Occiden- 
tal, MDCcxxxi. Ctr. o n." 27o. 



A quem ler XI 



perdido um pouco do seu equilíbrio natural e 
guindavam-se a altura donde mal se avistava 
a realidade das cousas. E de ver o que na 
dedicatória Ao Excellentissimo Senhor Dom 
Vasco Luís de Gama, Conde da Vidigueira, 
Almirante da índia. . etc, que abre o vol. 
das Rimas Varias, escreve o seu autor Dom 
Lionardo de São Joseph. « Este livro da 
melhor pena com que voou híía Águia de 
Portugal, decima Musa da Espanha ( titulo 
que lhe dá o comú aplauso) que por mandado 
de Vossa Excelência sai á luz, para maior 
luzimento seu, busca a de V. Ex* a cujo 
esplendor tributa adorações todo o Parnaso ». 
O bom do capelão do Conde Almirante não 
perdia o seu tempo, como se vê. Levara de 
Portugal o original das Rimas, que a sua curio- 
sidade lograra adquirir, e influíra na sua publi- 
cação, que se fez em Ruão em 1646, junto do 
ilustre fidalgo que servia. Daí as palavras 
louvaminheiras e aduladoras que é justo se lhe 
descontem em troca do seu amor pela poesia, 
simbolizada nesta decima Musa a quem tam- 
bém se dirige em verso deste quilate : 



Sois por estilo excellentf 
( O' peregrina Violante ! ) 
Na prosa tam elegante 
Quanto no verso eloquente 
Admire-se toda a gente 
Suspenda se o pensamento 
De ver tam raro portento 



Eram a moda, estas saudações. Não se 
podia falar dum escritor, que tivesse alcan- 
çado tal ou qual nome, que não se lhe despe- 
jasse em cima toda a cornucópia das mais 
odoríferas flores... de retórica. 



Xn Escritoras doutros tempos 



Violante do Cco assim procedera com Antó- 
nio de Sousa de Macedo (Rimas, pag. i8), 
com Manoel Severim de Faria ( Ibid., pag. 20), 
com D. Bernarda Ferreira de Lacerda (Ibid., 
pag. 33), com o P. António Vieira (Ibid., 
pag. 74), com Manoel Mendes de Barbuda c 
Vasconcelos (Parnaso, pag. 63 ) e com muitos 
outros. 

Que admira que lhe retribuissem idênticos, 
senão maiores louvores, dado o prestigio do 
sexo e do inegável talento que ela possuía ? 

Violante do Ceo nasceu em Lisboa a 3o de 
maio de 1602; professou no convento de N. 
S.* da Rosa da mesma cidade o Instituto 
Dominicano a 29 de agosto de i63o e morreu 
em 38 de janeiro de 1693 com 91 anos, 
8 meses, menos dous dias de idade. Foram 
seus pais Manoel da bilveira Montesino e 
D. Elena Franco. Estes os elementos biográ- 
ficos que se colhem nos autores, não porém 
com a individuação que dou e encontrei num 
velho manuscrito do antigo convento de Santa 
Cruz, de Coimbra. 

Que mais poderiam dizer-nos ? 

Aberia a porta do claustro cessavam em 
regra as aventuras do mundo.. 

A entrada no convento inspirou-lhe este 
lindo 

SONETO 

Escarmentada nó, mas prevenida 
Del peligro mayor el passo alexo 
Bien que de inspiracion, no de consexo 
A tan justo retiro persuadida. 

Oh nó permittais vós que arrepentida 
Los ojos buelva más a lo que dejo 
Pues otro ya, Senor, femineo sexo 
Por bolver á mirar quedo sin vida. 



A quem lêr XIII 



Firme la vista pues los rayos siga 
De vuestro claro sol, si acaso puede 
Aquila buelto amor, Uegar a tanto.. 

Y quando el alma el passo no prosiga 
Decretad vós, Senor, que ai punto quede 
Sino mudada en sal, desecha en Uanto. 

Parnaso, 44. 

• A sua convicção é profunda, a sua vontade 
Hvre. No Solilóquio que cantou no dia em 
que havia de fazer a sua profissão, rendida e 
humilhada exclama : 

Que puedo yo, Senor mio 
Dizir en esta occasion 



Oh quanto os devo en querer-me 
De mis anos en la flôr ! 



Parnaso, 274. 

Esta abnegação da vontade, esta absorpção 
da vida no pensamento eterno só dominam 
mais tarde perdidos os últimos ecos do amor 
terrestre, humano. A este consagra ainda vá- 
rias poesias, filhas dum desvairamento mistico- 
amoroso, que podem muito bem ter interpreta- 
ção diferente da que lhe dá Costa e Silva (i). 
Esses arrôbos de sentimento doentio sam 
frequentes nas escritoras do mesmo género. 
Violante do Ceo sabe bem que algumas vezes 
a sua musa se deleitou noutros amores dife- 
rentes daqueles a que renunciara por completo 
e disso se mostra arrependida. 

Si escrevi, si cante de objeto humano, 
Y no solo de vós. Divino objeto, 
En la publicidad de tal defeto 
Bien castigado está mi error profano. 

(i) Ensaio biografico-critico, vol. 8.», pag. 66. 



XIV Escritoras doutros tempos 



Julgado el próprio affecto por liviano, 
Hor aver explicado a^eno affecio, 
Quiep duda, que es casiigo dei respeto 
Que preferi talvez ai soberano ! 

Parkaso, pag. 3. 

Dessas poesias profanas vão adiante algumas 
amostras, poucas decerto para a nossa curiosi- 
dade, mas as bastantes para se avaliar da 
facilidade da inspinçáo, da naturalidade e do 
gosto da sua autora. E' de crer que Violante 
do Ceo jivesse feito o que fez Frei Agostinho 
da Cruz, podendo dizer como ele 

Os versos que cantei importunado 
Da mocidade cega a quem segura 
Queimai ( como vergonha me pedia ) 
Chorando por haver tam mal cantado. 

A sua musa encontra o lenitivo apropriado 
nos assuntos de caracter místico, absorvida 
num ideal de perfeição sempre desejável, sem- 
pre inatingível. Por vezes a sua musa c 
patriótica e saúda os heróis da grandeza épica 
de Nun' Alvares como neste soneto, mspirado 
no seu epitáfio, que neste momento histórico 
consola recordar : 

Yaze en el alto tumulo, que miras, 
Para exemplar de excelsas calidades, 
Quanta virtude dixeron las verdades. 
Quanto valor fingieron las mentiras. 

Tu que suspenso, ó passagero, admiras 
En tan breve lugar immensidades, 
Sabe, que ha de viver eternidades 
Este, que ves en marmoles y pyras. 

Pêro si la virtud, la fuerça, y brio 
Deste Varon en todo sin segundo 
Ignora tu razon, duda tu zelo, 



A quem lêr XV 



Mira su vida. y que dirás confio. 

Que se bien supo conquistar el mundo, 

No supo menos conquistar el cielo. 

As produçõis de Violante do Geo deviam de 
ser numerosas, porque ela própria confessa a 
sua natural inclinação para a poesia « aun en 
la nines », dizendo não ter tido mestre, mas 
somente a lição de livros e pedindo, por isso, 
o perdão dos seus defeitos 

Sin arte, sin caudal, sin eloquência 

Quien puede averque en su favor presuma í 

Parnaso, 74. 

Eis a resenha bibliográfica : 

1 — " Rimas Varias de la Madre Soror Violante dei 
Cielo, religiosa en el monasterio de la Rosa de Lisboa. 
Dedicados ai Exelentishimo ( sic J Senor Conde Almi- 
rante y por su mandado, sacnd^is a luz » En Ruan en 
la enprenta de Maurry, mdcxlvi, 8.° de i6-|-ibo pags. 

2 — « Solilóquios para antes e depois da commu- 
nhão ». Lisboa, por João da Costa, 1608. 24.°, Ibid , por 
António Rodrigues de Abreu, 1674, 12.". São cmco 
romances. 

3 — « Oitavas a Nossa Senhora da Conceição com 
applauso da victoria de Montes Claros em 17 de junho 
de i665 ». Lisboa, por António Craesbeeck de Mello, 
i665, 4.» de 7 pags. 

4 — « Meditações de Missa, e preparações affectuo- 
sas de sua alma devota ». Lisboa, sem o nome do 
impressor, 1689, 16.", Ibid., por Bernardo da Costa, 1728. 

5 — « Parnaso Lusitano de divinos, e humanos ver- 
sos compostos pela Madre Soror Violante do Ceo, 
religiosa dominica no convento da Rosa de Lisboa, 
dedicado á Senhora Sorfir Violante do Ceo religiosa 
no convento de Santa Manha de Lisboa ». Lisboa 
Occidental. Na officina de Miguel Rodrigues impressor 



\VI Escritoras doutros tempos 



do Senhor Patriarca, mdccxxxiii, a vots. Diz o Editor 
Miguel Rodrigues na dedicatória do livro á homónima 
da autora VioUnte do Ceo, igualmente religiosa, mas 
noutro convento da Capital «...me anim<íy a honrar 
esta edição com dedicar a V. M. as ditas Poesias para 
que, com tam grande patrocinio, e livres do esqueci- 
mento, a que já estavam condenadas, respirem ». 

Garcia Peres no Catalogo Ra^onado, 107, 
cita mais : 

— « Santa Engracia ». Comedia. E informa o Esta 
fué entre todas las que se presentaron ai Senado de 
Lisboa. Ia escogida para representarse en las hestas que 
se hicieron por la venida de Felipe 111 á dicha cíudad •. 

— « Carta á la Duquesa de Medinaceli ». Ms., 4.", 
54 fls. existente na Bibl. Nac. de Lisboa. P. 2, 28. 



MARIA DO CEO 

O nome desta distintíssima escritora está 
hoje pouco menos que esquecido, sendo ela 
aliás digna da maior simpatia. E como não 
tê-la por uma creatura singular e previlegiada, 
ela que nos seus livros se consegue elevar aos 
paramos da verdadeira inspiração escrevendo 
o verso com profundo sentimento e a prosa 
com a maior correcção e harmonia ? 

Maria do Ceo viveu na segunda metade do 
sec. xvíi e primeira do* xviii e professou no 
Instituto Seráfico, no convento da Esperança 
em Lisboa, quando tinha apenas 18 anos. 

Isto significa que por grande que fosse o seu 
merecimento impossível lhe seria o libertar-se 
inteiramente do jugo do meio em que a sua 
actividade e vida se desenrolavam. 



A quem lêr XVII 



A mais funesta dessas consequências fatais 
do meio é a adopção da lingoa espanhola, era 
que está escrita a maior parte dos seus livros. 
Com a iingoa o estilo, esse estilo, que é um 
verdadeiro tortulho literário, túmido, inchado, 
balofo, a que não poderam. porém, escapar as 
melhores inteligências da época, nem mesmo 
esse portentoso artista da palavra que foi o 
P. António Vieira e acerca do qual Maria do 
Ceo lindamente soube dizer « que das conchas 
mais toscas sabia tirar as pérolas mais finas ». 

E que poderia exigir se a uma senhora amor- 
talhada tam nova nos hábitos de freira e que 
foi duas vezes abadessa do seu mosteiro, outra 
vez porteira, outra vez mestra de noviças, e 
portanto e sempre até se extinguir a sua vida 
de nonagenaria — nascida em 1 1 de setembro 
de 1668 morreu a 28 de maio de lySS quando 
contava 74 anos, 8 meses e 17 dias — inter- 
nada em clausura e na evidencia de responsa- 
bilidades graves e várias, que poderia exigir-se 
a uma senhora em tais condições senão que o 
seu pensamento contínuo se perdesse nos arrô- 
bos do misticismo mais acendrado ? Mas não 
são só lirios e açucenas que florescem nos 
jardins de Soror Maria do Ceo, também o 
cravo de tons cantantes e triunfais floresce ao 
lado da violeta doce e perfumada, como pode 
ver-se nos exemplares que damos. 



Maria do Ceo foi filha de D. Catarina de 
Távora, filha terceira de D. Antão de Almada 
e de D. Isabel da Silva, e de António de Eça 
de Castro e, escreve Barbosa Machado, « irmã 
gémea doutra tão semelhante na figura e juizo 
que somente as vozes e os nomes desenganam 

b 



XVIII Escritoras doutros tempos 

a equjvocacão dos olhos *. O douto abade de 
Sever elogia-lhe o estudo, a suavidade das 
vozes, a delicadeza dos pensamentos (i). Da 
mesma sorte D. António Caetano de Sousa 
lhe chama a mui entendida c discreta, de 
admirável engenho, galante estilo, discrição c 
agudeza d (2). 

O Enihusiasmo Poético celebra-a devida- 
mente : 

Sedula Musarum viridanti fronde Marinam 
Turba coronabat, Pharioque e sanguine cretae 
Virginis eximias celebraniem carmine laudes 
Audire ut possit, reliquis non adjicit aures (3). 

que o já referido Sousa Caria traduziu : 

Prompta turba das Musas coroava 

De loureiro a Marina, que cantava 

O applauso extraordinário 

Da Virgem, que gerou o alento Phazio 

E por ouvir-lhe a voz, que ao Pindo entrega 

Aos acentos das mais a attenção nega (4). 

E na nota respectiva António dos Reis des- 
vendava o criptónimo Marina Clemência, que 
se dizia Religiosa de S. Fraticisco no Convento 
da Ilha de S. Miguel pondo o verdadeiro 
nome Maria do Céo, que em varias obras apa- 
rece como Religiosa e duas ve^es Abadessa do 
Religiosissimo Mosteiro da Esperança de Lisboa 
Occidental. 

Parece ter sido o autor do Enihusiasmo 
quem primeiro desvendou o fácil mistério, 
pois não era de crer que este se conservasse 



(i) Bibl, Lusit., s. V, 

(2) Hist Gen., x, 636-637. 

(3) Loc cit., sob o n.» 280. 

(4) Obr. cit., n.» 280. 



A quem lêr XIX 



por muito tempo escondido, tratando-se de 
creatura de raros méritos conhecida na Corte 
àiêm da altivez do pensamento, pela prosápia 
da ascendência. O rebuço do nome serve 
apenas de tema a maiores elogios dos panegi- 
ristas. Assim discreteia D. António Caetano 
de Sousa na Aprovação que precede A Pre- 
ciosa : « desta mesma Religiosa temos já 
imprensa em elegante estilo a vida da prodi- 
giosa Virgem e Mártir Santa Catarina, que 
bem mostra ser uma e outra produção do 
mesmo engenho. E se o nome não fora dife- 
rente o estilo me obrigava a afirmar que estas 
obras eram de outra Religiosa da mesma 
Ordem não Insulana, mas Lusitana, a qual 
por não mortificar a sua modéstia, tão reves- 
tida de humildade, não devo nomear, inda que 
o seu exemplar modo de vida a faz tão conhe- 
cida na Corte pela pessoa, como estimada 
pela virtude. Porém ainda que não seja teme- 
rário o juizo, devo conhecer esta obra pelo 
nome, que modestamente se lhe pôs; e é pêra 
sentir fiquem sepultadas outras muitas obras, 
que escreveu esta muito religiosa Madre ». 

O mesmo assevera D. José Barbosa, que 
reviu o livro em nome do Ordinário: « ...Já 
por ordem do Desembargo do Paço vi ha 
alguns annos a Vida de Santa Catharina com 
o nome desta mesma Religiosa ; e admirado 
de eloquência tão casta e de tão elevados pen- 
samentos achei que o nome era suposto, mas 
que a obra era mui natural do entendimento e 
da discrição da sua Autora verdadeira. Nâa 
padeci agora este engano, porque a sua pro- 
funda modéstia desculpa esta aí!ectada suppo- 
sição. Pouco importa que se queira ocultar, 
se o mesmo segredo que pretende lho está 
estragando a elevação do seu juizo. Não 



XX Escritora» doutros tempos 



podem subir tão alto as que a natureza aba- 
teu com a inferioridade do seu nascimento; e 
por isso a Aurora satisfazendo natural, mas 
involuntariamente ao ilustre do seu berço, dis- 
corre com voos tão altos, que parecem de 
aguia ». 

Em todas as licenças, fossem do Santo Ofi- 
cio, do Paço ou do Ordinário, se lhe tecem 
idênticos elogios. « As suas idéas são» altas, 
diz um dos seus juizes a propósito do Triunfo 
do Rosário, o estilo harmonioso, os conceitos 
profundos, as metáforas próprias, as alegorias 
solidas, as expressões graves, a frase magss- 
tosa \ enfim tudo quanto tenho visto dessa 
Religiosa autora acredita a Nação, de que 
Vossa Majestade é pai e a Santa Província de 
que ela é filha ; e nisto digo tudo a Vossa 
Majestade e lhe faço a ela todo o seu elogio ». 

E terminava julgando o livro « não só digno 
da luz da estampa, senão também merecedor 
de ter o melhor logar nas douradas estantes 
da Real Biblioteca de V. Majestade, e de 
andar sempre nas suas reais mãos, assim 
como andavam as obras de Homero nas mãos 
de Alexandre o Grande ». 

Por infelicidade o livro é todo escrito em 
espanhol e um dos mais eivados do gongo- 
rismo, tanto do apreço dos contemporâneos da 
sua talentosa e distintíssima autora. 

Para outro Qualificador ela é t assombro do 
sexo feminino, inveja do masculino, e admira- 
ção de ambos » (Obras Varias), e aconselha a 
que se lhe roubem os originais dos seus tra- 
balhos visto não haver outra forma de forçar 
a sua modéstia: «...resolvo aconselhar que 
será licito roubarihe este inestimável tesouro, 
pois a sua modéstia nos quer roubar os seus 
escriptos ocultando no recato da sua cella os 



A quem ler XXI 



monstruosos partos do seu talento, que excede 
ao mais varonil. . . ». 

De parceria com estes exagerados encómios 
caminha a Approvação do P. M. Boaventura 
de S. Gião Qualificador do Santo Oficio que 
precede o vol. i.° de ^ Preciosa, que « ou he 
maravilha da graça, ou prodígio da natureza, 
porque na matéria e na forma excede a 
aprehensão humana ». E ainda: « o estilo 
áureo, aliiloco, discretíssimo e tão lacónico, 
que cada palavra é um conceito, cada termo 
um pensamento, cada periodo uma sentença, 
será lido com admiração, aplaudido e bem 
aceito este livro pela singularidade da idéa, 
relevância do argumento e erudição do dis- 
curso ; e com maior razão sendo produto de 
uma inteligência daquele sexo, que não está 
em uso seguir as Escolas e professar as 
letras. . . ». 

Tem Maria do Ceo direito a estes encómios ? 

Descontando o que neles ha de natural exa- 
gero, de resto facilmente explicável, a resposta 
não pode deixar de ser afirmativa. 

Mais do que em Violante do Ceo a sua musa 
é maviosa, evocando, por vezes, uma suavidade 
e um perfume autenticamente quinhentistas. 
Além dos extractos que vão na nossa colecção 
vejam-se mais exemplos como esta linda pas- 
toral 

Montanheza, que fostes á fonte 

( orno suspeito, 
Que trouxestes agua nos olhos 

fogo no peito. 
Quem te trocou no caminho, 
Serrana dos olhos negros ? 
Pois te conheço só hoje 
Pelo que te desconheço ? 

Como suspeito 
Que encontrastes teus cuidados 
A roubar-te taes assocegos ? 



XXII Escritoras doutros tempos 



Se das pedras te fíastes 
Ouvi-lo d'elas espero 
Porque em segredo de amor 
Nem as pedras t5m segredo. 

Como suspeito 
Que o que fiaste das pedras, 
Hão de romper os penedos. 
Se emmudeces suspirando 
Sabidos são teus excessos 
Que pedir segredo ao ar 
E' querer prender o vento. 

Como suspeito 
Que has de dizer a suspiros 
O que guardaste a silencio. 
Se dás teu mal a teu pranto 
Olha, que em tantos disvellos 
O fiar-te do cristal 
E' fazer claro o mistério. 

Como suspeito 
Que pelo cristal do pranto 
Te hão de ver os pensamentos. 
Se o coração tens fendo 
Declara seus sentimentos, 
Pois não ha peito serrado 
Onde ha coração aberto. 

Como suspeito, 
Que doente o coração 
Grite o mal pelo remédio 
Montanheza que fôsies á fonte 

Como suspeito 
Que trouxestes a agoa nos olhos 

Fogo no peno (i). 

Quem assim escrevia não tinha decerto so- 
mente os olhos no ideal cristão. 

A sua alma prendia-se ainda á terra, quem 
sabe se por algum cruel desengano. Quetn 
sabe? Quando Maria do Ceo deixou as vai- 
dades do mundo, os seus prazeres, as suas 
glorias, os seus triunfos, quem sabe que espi- 
nhos então a dilaceraram, acordando agora 
somente no amargo sentimento da saudade ? 

(I) Cfr. A Preciosa, vol. i.«, i85. 



A quem ler XXIII 



Numa parte dum dos seus livros fala ela das 
glórias do amor e com que firmeza e com que 
subtil análise 1 

Glorias de amor, glorias de amor 

Al viento, ai viento, pues dei viento sois. 

E assim define o amor: « E uma aspiração 
que vive por fogo e acaba por ar; é um ai que 
vive por alento e morre por suspiro; é uma 
mentira que vive duvida e acaba desengano; 
é um fingimento que dura força e acaba trage- 
dia ; é um delírio que vive desmaio e passa a 
acidente ; é um velar de olhos cerrados ; é um 
cuidado de corações adormecidos ; uma fé de 
idolatras ; uma idolatria de infiéis. Se este é, 
pois, o amor que faz estas glorias, quais serão 
as glorias do amor? » (i). 

Nas suas poesias espanholas ha também, 
como se verá adeante, alguns espécimes inte- 
ressantes, como ainda este : 



Silencio, silencio, aves 
Callen vuestras vozes hoy 
Que duefno para la vida 
Despierta para el amor. 
Dexen-me dormir. 
No me acuerden, no. 

Blandos zephiros, sociego 
En vuestro aliento veloz 
Que no es bien se atreva el ayre 
Quando le oprime el ardor. 
Dexín-me dormir, 
No me acuerden, no. 

Passito, passito, afTectos 
Quedo, que adveriiros voy 

(i) A Preciosa, vol. i.% pag. i63. 



XXIV Escritoras doutros tempos 



Que a los silêncios dei alma 
No hade osar ni el coraçon. 

Dexen-me dormir, 

No me acuerden, no. 

Ardientes suspiros, passo, 
Advertid que vozes sois 

Y si calla el pensamiento. 
Gomo puedo osar la voz ? 

Dexen-me dormir. 
No me acuerden, no. 

Callad que duermo segura, 

Y iiunque sin sentido estoy 
Yo diera ioda la vida 

Por toda la suspen>ion. 
Dexen-me dormir, 
No me acuerden, no. 

Silencio, aves ; silencio, fieras : silencio, rios ; 
Silencio, aires ; silencio, flores; silencio, amor. 
No giema fiera, no llore fuente. no cante nmfa, 
No í>' pie viento, no mueva hoja, no alienie flor, 
'^.)ue de amor en los silêncios 
Hasta el silencio es rumor (i). 

Eis agora a parte bibliográfica : 

1 — o A Phenix appa^ecida na vida, morte, sepul- 
tura e milngres da gloriosa Sancta Catharina, com sua 
novena e peregrinasão ao Sinay ». Lisboa, na Officina 
Deslnndesiana, 1715, 8°. 

2 — «A Preciosa. Allegoria mora! offerecida á Ex- 
cellentissima Senhora D Maria Anna das Estrellas, 
Religiosa no Mosteiro da Esperança de Lisboa, e publi- 
cada por D Jayme de la Te e Sagau. Cavalleiro da 
Ordem de São Tiago Sua Authora a Madre Marina 
Clemência Religiosa de São Francisco no Mosteiro da 
Ilha de S Miguel » Lisboa Occidental Na Officina da 
Musica. Anno de MDCCXXXI, 8 % de XXX -+- 355 -f 
4 no fim innum 

(i) Enganos do Bosque, pag. 140. 



A quem lêr XXV 



3 — «A Preciosa. Obras de misericórdia em primo- 
rosos e mysticos diaJogos expostas : Elogios dos San- 
tos em vários cantos poéticos e históricos expendidos 
por Marina Clemência, Religiosa de S Francisco no 
Convento da Ilha de S Miguel ; mandados á impressão, 
e ofFerecidos á Mãy Santíssima do Carmo Maria Senhora 
Nossa, por Sylvano das Ondas. Segunda Parte »- Lis- 
boa Occidental, na Officina de Musica. MDCGXXXIII. 

4 — n Obras varias e admiráveis da M. R. Madre 
Maria do Ceo. . dadas ao prelo pelo zelo, e diligencia 
do P. Francisco da Costa, do habito de S Pedro ». 
Lisboa Occidental Na Offic de Manoel Fernandes 
da Costa, impressor do Santho Officio. Anno de 
MDCCXXXV, 8.», XII + i57 pgs. 



Garcia Peres, no Catálogo Ra^onado men- 
ciona com o mesmo titulo 

— « Obras varias y admirables de la Madre Maria do 
Ceo... Corregidas de los muchos defectos de la edi- 
cion portuguesa, é ilustradas com breves notas por el 
Doctor D Kernando de Seitién Calderon de la Barca 
( pseudónimo dei P Florez ) y dedicadas á la Excma. 
Sra Duquesa de Mcdína-Coeh ». Madrid, por António 
Marin, 174.1, 2 tomos, 8.». 

5 — « Aves illustradas em avisos para as Religiosas 
servirem os officios dos seus Mosteiros Sua verdadeira 
Autora a M R. M. M.tria do Ceo. Religiosa, e duas vezes 
Abbadessa do religiosíssimo Mosteiro da Esperança 
de Lisboa Occidental da Provinda de Portugal Dado 
ao prelo por diligencia de Joseph Francisco de Balu- 
ceato, natural da anfga Escócia, e catholico romano ». 
Lisboa Occidental Na Officina de Miguel Rodrigues, 
impressor do Senhor Patriarca. MDCCXXXIV. 

6 — « Triumpho do Rosário repartido em sinco 
autos do mesmo, muito devotos e divertidos pelas sin- 
gulares idéas, com que os compoz a muito reverenda 
Madre Mana do Ceo. . . dado a estampa pelo costumado 
zelo, com que já mandou imprimir os outros tomos o 
P. Francisco da Costa, do habito de S. Pedro ; e á sua 
custa ». Lisboa, por Miguel Manescal da Costa, 1740, 8.". 



XXVI Escritoras doutros tempos 



Consta de cinco autos com os seguintes 
títulos : 

I." — La flor de las finesas, pags. i a 58. 

2." — Rosal de Mjria, pags. 59 a 122. 

3.** — Perla y rosal, pags i23 a 181. 

4" — Las rosas com las espigas, pags 182 a 23o. 

5.» — Três redenciones dei nombre, pags. 23 1 a 287. 



São todos em castelhano. 

7 — « Enganos do Bosque, Dezenganos do Rio. em 
que a alma entra perdida, e sahe dezenganada. Com 
outras muitas obras varias, e admiráveis, todos por sua 
verdiídeira Au»ora a M R. Madre Soror Maria do Ceo, 
Religiosa, e duas vezes Abhadessa do Religiosissimo 
Mosteiro da E^perançn de Lisboa Occidental da Provin- 
cia de Portugal. Dados á estampa pelo zelo e diligen- 
cia do P. Francisco da Costa, do habito de S. Pedro ». 
Lisboa Occidental. Na Officina de Manoel Fernan- 
des ua C"Sta, impressor do S<nto Officio. Anno de 
MD'.CXXXV1. Innoc, Dicc Bibl. VI, 137 cita uma 
ed. de 1741. por António Isidoro da Fonseca. 



Ficaram inéditos e podem considerar-se per- 
didos três autos a S. Aleixo com os titulos : 

I ." — Mayor finesa de amor. 

1.* — Amor y fé 

3." — Las Lagrimas de Roma. 

E as três comédias : 



I.' — En la cara va la fecha 

2." — Preguntarlo á tas estrellas. 

3.* — En la mas escura noche. 



A quem lêr XXVII 



MADALENA DA GLORIA 

D. Madalena da Glória ou D. Maria Mada- 
lena Eufemia da Gloria era natural de Sintra 
onde nasceu em 1 1 de maio de 1672. Professou 
no Convento da Esperança em 25 de março 
de 1688, segundo diz Innoc. (i), ou em 1690, 
conforme escreve Cyrillo Volkmar Machado (2) 
que àlêm de escritora a menciona como tendo 
pintado « vários painéis para uma capela sua ». 

Todos os seus livros foram publicados sob 
o anagrama de Leonarda Gil da Gama^ a que 
acrescentava « Natural da Serra de Cintra » 
e sam : 



— « Astro Brilhante em novo mundo, fragrante flor 
do Paraíso plantada no jardim da America, historia 
panegyrica e vida prodigiosa da S ta Rosa de S-t" viária, 
ofFerecida á Santissima Virgem do Rosário escrita por 
D Leonarda Gil da G «ma, natural da Serra de Cintra ». 
Lisboa 0'cident-il, na Officina de Pedro Ferreira Anno 
MDC< -XXXIII, 8». XVI — 335 pags. 

— « Novena de Sancta Rosa de Santa Mana ». Lis- 
boa, nã Oííicina da Musica, 1734, S ». 

— « Brados do Desengano contra o profundo sono 
do esquecimento Em ires historias exemplares para 
melhor conhecer-se o pouco, que durão as vaidades do 
mundo, e poder das divinas inspiraçoens escritas por 
Leonarda Gil da Gama. natural da Serra de Cintra •. 
I Parte Lisboa, na Officma de Domingos Rodiigues, 
anno de MD(X:XLIX II Parte, ibid, na Officma de 
Musica, MDCCXXXIX. 

— « Orbe Celeste adornado de brilhantes estrelas e 
dois ramilhetes : hum colhido pela consideração, outro 
pelo divertimento Dedicado á ilustríssima Senhora 
D. Joana Tereza de Noronha de Nápoles. Autora Leo- 



(i) Dicc Bibl , V, 344. 

(2) Collecção de Memorias, 42. 



XXVIII Escritoras doutros tempos 



narda Gil da Gama » Lisboa. Na Officina de Pedro 
Ferreira. Anno MD .CXLIl 

— n Aguia real ou phenix abrasado, pelicano amante. 
Historia penepyrica e vida prodigiosa do inclyto patriír- 
cHh Suncto Agostinho «. Lisboa, na Oíficma Pmheiriense 
da Musica. 1744. 4.° de LXIV — 345 pags. 

— « Reino da Babylonia ganhado pelas armas do 
Empyreo : discurso moral escrito por Leonarda Gil da 
Gama, natural da Serra de Cintra. Òflerecido ao Senhor 
Francisco Pereira da Silva ». Lisboa, na Officma de 
Pedro Ferreira, MlJC(.XI-IX, de 38 -f- 296 pags. com 
gravs algumas assinadas por Debrie. 

Que diremos de Madalena da Glória, alma 
dotada de verdadeiro talento como as suas 
contemporâneas ? Ha numa das suas interes- 
santes composições espanholas uma passagem 
curiosa. E' a que intitulou Baile e em que 
são figuras o Amor, duas Damas, o Apetite e 
doi.s Galantes. 

O Amor entra vestido de pobre e encostado 
á al)ava : 

El Amor soy, que he llegado 
A tal pobreza, que pido. 
Por sustentar nu decoro, 
Limosna. como mendigo. 
Hay quien quiera limosna 
Dar ai dios Cupido ? 

e acaba por confessar-se, em coro com as 
outras personagens, digno só de despreso e 
esquecimento. Diz ele : 

Quien en Amor confia 

Que premio espera 

Si el Amor es eng no, mentira, y quimera? 
Todos — Engano, mentira y quimera ( Uançan) 

Apetito ( Canta ) — Tiene en pecho de nino 
Alma de fiera 

Queel Amore^ engano,mentira,yquimera. 
Todos — Engano, mentira, y quimera ( Dançan) 

I.» Dama ( Canta J — Solo en las falsedades 
oy persevera 



A quem ler XXIX 



Que el Amor es engano, mentira, V quimera. 
Todos — Engano, mentira y quimera ( Dançan ) 

1." HoMBRE — En sus mudanças siempre 
Ver se pudiera 
Queel Amor es engano, mentira, y quimera. 
Todos — Engano, mentira, y quimera. (Dançan) 

a.» Dama — Sin arco. y sin carcaz 

Ver-te quisitra ; 
Queel Amor esengíino, mentira, y quimera. 
Todos — Engano, mentira, y quimera. ( Dançan) 

2." HoMBRE — Las saetas que apunta 

Siempre las verra 
Queel Amor es engano, mentira, y quimera. 
Todos — Engano, mentira, y quimera. ( Dançan y 

acaban). (i). 

Não seria a repetição deste estribilho o eco 
longínquo de desilusõis perdidas, a vingança 
dum coração viuvo para sempre de fagueiras 
esperanças, agora na tortura duma saudade 
dolorosa ? 



Mendes dos Remédios. 



(i) Brados do Desengano, 2." Parte, pags. 87-93, 



ESCRITORAS 
DOUTROS TEMPOS 



POESIAS 



DE 



Soror Violante do Ceo 



SONETOS 



Amor, se uma mudança imaginada, 
E já com tal rigor minha homicida, 
Que será se passar de ser temida 
A ser, como temida, averiguada ? 

Se só por ser de mim tam receada, 
Com dura execução me tira a vida, 
Que fará se chegar a ser sabida ? 
Que fará se passar de sospeitada ? 

Porém se já me mata, sendo incerta, 
Somente imaginá-la e presumi-la. 
Claro está (pois da vida o fio corta), 

Que me fará despois, quando for certa 
— Ou tornar a viver, para senti-la, 
Ou senti-la também despois de morta. 



Soror Violante do Ceo 



II 



Se era brando o rigor, firme a mudança, 
Humilde a presumpção, vária a firmeza, 
Fraco o valor, cobarde a fortaleza, 
Triste o prazer, discreta a confiança. 



Terá a ingratidão firme lembrança, 
Será rude o saber, sábia a rudeza, 
Lhana a ficção, sofistica a lhaneza, 
Áspero o amor, benigna a esquivança ; 

Será merecimento a indignidade, 
Defeito a perfeição, culpa a defensa, 
Intrépido o temor, dura a piedade ; 



Delicto a obrigação, favor a ofFensa, 

Verdadeira a traição, falsa a verdade, 

— Antes que vosso amor meu peito vença. 



III 

Se apartada do corpo a doce vida, 
Domina em seu lugar a dura morte, 
De que nasce tardar-me tanto a morte 
Se ausente d'alma estou, que me dá vida ? 

Não quero sem Silvano já ter vida. 
Pois tudo sem Silvano é viva morte. 
Já que se foi Silvano, venha a morte, 
Perca-se por Silvano a minha vida. 



Poesias 



Ah ! suspirado ausente, se esta morte 
Não te obriga querer vir dar-me vida, 
Gomo não ma vem dar a mesma morte ? 

Mas se nalma consiste a própria vida, 
Bem sei que se me tarda tanto a morte, 
Que é porque sinta a morte de tal vida. 



IV 



Que suspensão, que enleio, que cuidado 
E' este meu, tirano deus Cupido ? 
Pois tirando-me enfim todo o sentido 
Me deixa o sentimento duplicado. 

Absorta no rigor de um duro fado. 
Tanto de meus sentidos me divido, 
Que tenho só de vida o bem sentido 
E tenho já de morte o mal logrado. 

Enlevo-me no damno que me oíFende, 
Suspendo-me na causa de meu pranto 
Mas meu mal (ai de mim!) não se suspende. 

O cesse, cesse, amor, tam raro encanto 
Que para quem de ti não se defende 
Basta menos rigor, não rigor tanto. 



Soror Violante do Ceo 



Vida que não acaba de acabar-se, 
Chegando já de vós a despedir-se, 
Ou deixa por sentida de sentir-se, 
Ou pode de immorial acreditar-se. 



Vida que já não chega a terminar-se, 
Pois chega já de vós a dividir-se, 
Ou procura vivendo consumir-se, 
Ou pretende matando eternizar-se. 



O certo é, Senhor, que não fenece, 
Antes no que padece se reporta, 
Porque não se limite o que padece. 



Mas, viver entre lagrimas, que importa ? 
Se vida que entre ausências permanece 
E' só viva ao pezar, ao gosto morta ? 



VI 



Se por não me lembrar de um crocodilo, 
Que matar-me intentou com falso pranto, 
Poderá sugeitar-me a rigor tanto, 
Que habitara cos mais no egípcio Nilo. 



Se por não me acordar daquelle estilo, 
Que foi já por meu mal infausto encanto, 
Poderá padecer, causando espanto. 
Quantos tormentos inventou Perilo. 



Poesias 



Tudo passara enfim, tudo fizera 

Por não me vir jamais ao pensamento 

Quem fingindo chorou, matou fingido. 



Mas que raro tormento não quisera, 
Quem julga só peio maior tormento, 
A lembrança menor de um fementido. 



VII 



Quem, depois de alcançar o que pretende, 
Da mesma obrigação delicto forma •, 
Quem em castigo o galardão transforma, 
Ou aborrece muito, ou pouco entende. 

Mas do nome de ingrato se defende, 
Bem CO de presumido se conforma 
Quem quando mais feliz queixoso informa, 
Quem em vez de premiar ingrato oíFende. 

Porém, quando o juizo é levantado, 
Quem duvida que a queixa é fingimento, 
De quem não se quer dar por obrigado ? 

Este motivo foi do vosso intento, 

Porém não se logrou, que o meu cuidado, 

Tem por premio melhor este escarmento. 



Soror Violante do Ceo 



VJIÍ 
[Ao Dr. Duarte Madeira Arráe^] 

O tu, que Oposto sempre á dura Parca, 
Conservas em teu ser o ser humano, 
Pois por ser Esculápio soberano, 
Menos por seu respeito a morte abarca. 

Tu, que Arráez deves ser, da vital barca, 
Que navega no mar do mal tirano, 
Novo Galeno, Apolo lusitano, 
Medico, enfim, do português Monarca, 

Logra de singular a feliz sorte. 
Tanto apezar da intrépida homicida. 
Que sejas do mais douto immortal norte. 

Pois victoria será bem merecida 

Que quem opor se sabe á mesma morte. 

Saiba dar a seu nome immortal vida. 



IX 
[A Dona Mariana de LunaJ 



Musas que no jardim do rei do dia 
Soltando a doce voz prendeis o vento; 
Deidades que admirando o pensamento, 
As flores augmentaes que Apolo cria ; 



Poesias 



Deixae, deixae do sol a companhia, 
Que fazendo invejoso o firmamento, 
Uma lua, que é sol, e que é portento, 
Um jardim vos fabrica de harmonia. 



E porque não cuideis que tal ventura 
Pode pagar tributo á variedade, 
Pelo que tem de lua a luz mais pura. 

Sabei que acreditando a divindade, 
Este jardim canoro se assegura 
Com o muro immortal da. eternidade. 



[Teme a morte repentina, e ajusta sentença de con- 
denação]. 

Temer, que se execute uma sentença, 
A todo humano ser notificada, 
Acção é natural, mas bem fundada 
Na conta de uma offensa, e outra offensa. 



Imaginar que é qualquer doença 
Precursora da morte decretada, 
Que muito, se talvez dissimulada 
Vem sem aviso, e sempre sem licença ! 

Gondemne meus temores quem se atreve 
A viver sem temor no breve encanto 
Da vida, que conhece por tão breve : 



IO Soror Violante do Ceo 



E tema eu, Senlior, com justo espanto; 
Porque, se só não teme quem não deve, 
Bem é que tema eu, pois devo tanto. 



XI 

{Voifes de uma dama desvanecida de dentro de uma 
sepultura, que fala n outra dama, que presumida 
entrou em uma igreja com os cuidados de ser vista 
e louvada de todos, e se assentou junto a um tumulo, 
que tinha este epitáfio, que leu curiosamente : ] 

O' tu, que com enganos divertida 
Vives do que has de ser tão descuidada, 
Aprende aqui lições de escarmentada. 
Ostentarás acções de prevenida. 



Considera, que em terra convertida 
Jaz aqui a belleza mais louvada, 
E que tudo o da vida é pó, é nada, 
E que menos que nada a tua vida. 



Considera, que a morte rigorosa 
Não respeita belleza, nem juizo, 
E que sendo tam certa é duvidosa : 

Admitte deste tumulo o aviso, 
E vive do teu fim mais cuidadosa, 
Pois sabes, que o teu fim é tam preciso. 



Poesias 

XII 
[A El- Rei D. João IV de Portugal] 

Que logras Portugal ? — um rei perfeito. 
Quem o constituiu ? — sacra piedade : 
Que alcançaste com elle ? — a liberdade. 
Que liberdade tens ? — ser-lhe sugeito. 



Que tens na sugeiçao ? — honra e proveito. 
Que é o novo rei ? — quasi deidade. 
Que ostenta nas acções ? — felicidade. 
E que tem de feliz ? — ser por Deus feito. 



Que eras antes delle ? — um labyrinto. 
Que te julgas agora ? — um firmamento. 
Temes alguém ? — não temo a mesma Parca. 



Sentes alguma pena ? — uma só sinto. 

Qual é ? — não ser um mundo, ou não ser cento, 

Para ser mais capaz de tal Monarca. 



XIII 
[Ao mesmo] 



Um só pezar, senhor, sente a vontade 
Neste excesso da gloria portuguesa, 
E é não poder comvosco uma fineza 
Deixar de parecer comodidade. 



Soror Violante do Ceo 



Quem^se vos rende, alcança liberdade, 
Quem vos adora, ostenta subtileza, 
Servir-vos muito, é de notar grandeza, 
Morrer por vós, buscar eternidade. 



Tudo finezas são, mas de tal modo 
Comodidades só parecem, quantas 
Finezas ha na paga que dais nellas. 



E assim de todas o remédio todo 
E' fazermos por vós finezas tantas. 
Que talvez o pareça alguma delias. 



XIV 

[Ao nascimento do Príncipe nosso Senhor D. João, que 
Deus guarde, que nasceu em sábado, 22 de outubro 
desie presente anno de i68g, secundogeniío do Senhor 
Rei D. Pedro II, de Portugal, e da Rainha nossa 
Senhora D. Maria Sofia Isabel, que Deus guarde 
com as desejadas felicidades nos vaticínios deste seu 
Reino] , 

Nasce segundo para ser primeiro. 
Este princepe augusto e peregrino, 1 

Pois logrando excellencias de divino, 1 

Sugeitará felice o mundo inteiro. 

Nasce para aumentar o cativeiro 
Dos corações do Luso e Palatino ; 
Pois cada qual se ostentará mais fino 
Em tributar-lhe o amor mais verdadeiro. 



Poesias i3 



Nasce para exemplar de magestades, 
Honra de Portugal, pasmo do mundo, 
Gloria de Deos, jactância de Lisboa. 



Nasce para depois de eternidades, 
Succeder a um monarca sem segundo, 
Nos méritos, no cetro, e na coroa. 



XV 

[A El-Rei nosso Senhor em agradecimento de uma 
mercê, que fe^ á Autora «m o dia do nascimento do 
Principe D. João, que Deus guarde] 

A vossos pés,- monarca generoso, 
Graças vos sacrifico agradecida 
Por conceder soccorros a uma vida 
Contra o poder do fado rigoroso. 



Remunere o Senhor mais poderoso 
Uma acção tanto ás suas parecida, 
Pois quanto tem de menos merecida, 
Tanto mais vos abona de piedoso. 



Oh vivei, Alexandre Lusitano, 
Idades tam sem conto, que divino 
Vos presuma talvez o ser humano 



Vivei para alcançardes de contino 
Já victorias do pérfido Othomano, 
Já triunfos também de meu destino. 



14 Soror Violante do Ceo 



XVI 
MADRIGAL 

Enfim fenece p dia, 

Enfim chega da noite o triste espanto, 

E não ciiega desta alma o doce encanto 

Enfim fica triumphante a tyrania, 

Vencido o soífrimento. 

Sem alívio meu mal, eu sem alento, 

A sorte sem piedade, 

Alegre a emulação, triste a vontade, 

O gosto fenecido, 

Eu infelice enfim, Lauro esquecido . . . 

Quem viu mais dura sorte ? 

Tantos males, amor, para uma morte ? 

Não basta contra a vida 

Esta ausência cruel, esta partida ? 

Não basta tanta dor ? tanto receio ? 

Tanto cuidado, ai triste, e tanto enleio ? 

Não basta estar ausente, 

Para perder a vida infelizmente ? 

Se não também, cruel, neste conflicto 

Me negas o soccorro de um escripto ? 

Porque esta dor que a alma me penetra 

Não ache o maior bem na menor letra, 

Ai ! bem fazes, amor, tira-me tudo I 

Não ha alívio, não, não ha escudo. 

Que a vida me defenda. 

Tudo me falte, enfim, tudo me offenda, 

Tudo me tire a vida. 

Pois eu a não perdi na despedida. 



Poesias r5 

XVII 
DECIMAS 

[A Diogo Ferreira Figueiroa pelo seu livro intitulado 
« Theatro da maior gloria Portuguesa »] 

Sois artífice e figura 
De theatro tam perfeito, 
Que imita em não ter defeito 
A' celeste architectura. 
Representando a ventura 
Do Luso mais celebrada, 
Tanto a fazeis admirada, 
Tanto a deixais applaudida, 
Que se alegrou succedida, 
Suspende representada. 



XVIII 

[A um Doutor que chamou á Autora em uns versos que 
lhe fej viola — Jlôr, e viola — instrumento] 

Contradizer a um Doutor 
Bem sei que é temeridade : 
Porém com uma verdade, 
Quero pagar um louvor: 
Nem instrumento, nem flor 
Sou •, porém, se o posso ser, 
Ninguém trate de emprehender 
O que não ha de alcançar: 
Pois nenhum me ha de tocar, 
Pois nenhum me ha de colher. 



i6 Soror Violante do Ceo 



XIX 

Mais sciencia que verdade 
Acho nesta certidão, 
Pois me causa admiração, 
Porém não seguridade : 
Quem fazer quer a vontade 
A quem eu venero, e sigo, 
Que não será muito digo 
(Mas não o digo por gabo) 
Querer dar alma ao diabo, 
Por amor de tal amigo. 



Dous estremos o cuidado 
Me combatem juntamente: 
Um — receio do presente, 
Outro — o medo do passado : 
Se escrivão tam abonado 
Me assegura com verdade, 
Não será temeridade: 
Presumir, que em sizo, ou graça, 
Se não deu fé da desgraça, 
Que deu fé da necessidade. 



E assim posto que delira 
Quem ostenta variedade, 
Ora sinto ser verdade, 
Ora sinto ser mentira : 
Porque se da maior ira 
Meus papeis despojos são 
Que o sinta muito é razão, 
Porém mais (que em tal distancia) 
Dê fé da minha ignorância 
Tam notável discrição. 



Poesias 17 



Porém o mais certo é 
(Que se bem é singular) 
Pouca fé poderá dar 
Quem não sabe guardar fé: 
Serei como S. Thomé 
Em não crer nunca sem ver: 
Pois não deixo de entender, 
Com indicios a milhares, 
Que quem tem damas aos pares, 
Pouca fé deve de ter. 



XX 

Tem-me tam desvanecida 
Sugeição tam venturosa, 
Que sendo a mais respeitosa, 
Sou hoje a mais atrevida: 
Mas estou tam presumida 
De ver-me súbdita vossa, 
Que não é muito que possa 
Festejar com tal excesso 
Por vosso o melhor successo, 
A maior dita por nossa. 



Mas se hei-de fallar verdade. 
Senhor, em métrico assento, 
O vosso merecimento 
E' maior que a dignidade: 
Igual a capacidade 
De vosso illustre sujeito 
Espero ver-vos eleito : 



i8 Soror Violante do Ceo 



Pois para que assim vos seja, 
Não pode a maior inveja 
Achar-vos nunca defeito. 



O cargo de ser prior 
Não vossas partes melhora, 
Que se prior sois agora 
Sempre sois superior : 
Oh ! não trateis com rigor 
Aspecto tam permanente: 
Mas se o delirio presente 
Não tem desculpa bastante 
Tende me por delirante, 
Mas sabei que estou contente. 



XXI 

Coração, basta o sofrido, 
Ponhamos termo ao cuidado. 
Que um despreso averiguado 
Não é para repetido : 
Basta o que havemos sentido, 
Não demos mais ao tormento. 
Que passa de sofrimento, 
Dar por um desdém tirano 
Toda a alma ao desengano, 
Toda a vida ao sentimento. 



Fujamos deste perigo, 
Livremo-nos, coração, 
Que não é bom galardão 
O que parece castigo : 



Poesias 19 



Eu comvosco, e vós comigo 
Melhor o mal passaremos : 
Pois entre amantes estremos 
Tam divididos ficamos, 
Que se nós comunicamos 
E' só quando padecemos. 



Aquelle bronze animado, 
Por quem deixais de assistir-me. 
Ai ! que as finesas de firme 
Troca em desdéns demudado: 
Deixemos pois um cuidado, 
Que serve só de homicida ; 
Porém se é força que a vida 
Fique egualmente arriscada : 
Antes que de despresada, 
Quero morrer de esquecida. 



XXII 



Cuidados assim vos quero, 
Que sejais desesperados. 



GLOSA PRÓPRIA 

E' tal a causa que amor 
Vos deu, cuidados queridos, 
Que em serdes delia nascidos 
Me dais o premio maior: 
Quem não aspira ao valor, 
Que não esperando espero, 
Tenha por caso severo 



9Ô Soror Violante do Ceo 



Querer-vos sem pretender, 

8ue eu só para merecer, 
uidados assi vos quero. 



Só sinto a difficuldade 
Com que este amor satisfaço. 
Por não dizerem que faço 
Virtude a necessidade; 
Porque a serdes com verdade 
De esperanças animados, 
Eu as deixara, cuidados, 
Por merecer nesta empresa, 
Por cuja razão me peza. 
Que sejais desesperados. 



XXIII 
CANÇAM 

£Á Madre Dona Maria de Meneses sendo Prior esa do 
Convento do Salvador de Lisboa ]. 

Discreta maravilha. 
Assombro do maior entendimento, 
Excesso, a que se humilha 
O mais desvanecido pensamento, 
Prodigio soberano, 
Divina intelligencia em ser humano : 



Quem poderá louvar-vos 
Sem passar pelo risco de offender-vos, 
Se para exagerar-vos 
E' forçoso, senhora, comprehender-vos ? 
E' maior impossível 
Chegar a comprehender o incomprehensivel. 



Poesias 21 



E' VOSSO entendimento 
Tam raro, tam subido, tam divino, 
Que de maior portento 
Pôde ter o attributo peregrino, 
E ainda este attributo 
E' do maior saber menor tributo. 



Quem conhecer o extremo 
De vosso entendimento soberano, 
Que vos inveje temo ; 
Mas vem a ser tão útil este damno, 
Que quem tiver inveja 
Mostrará que conhece o que deseja. 



Eu pelo menos digo, 
Que absorta no divino deste excesso 
Contra o mesmo, que sigo, 
Invejosa, senhora, me confesso, 
Porque mostrar desejo 
Que conheço o que sois, pois vos invejo. 



Mas é tam rara em tudo 
A inveja, que procede de tal causa, 
Que nem de aífectos mudo. 
Nem vossa presumpção pezar me causa, 
Antes, se considero. 
Quanto mais vos invejo, mais vos quero. 



Discreta, illustre, e santa 
Vos intitula a fama, que publica 
Excessos, com que espanta, 
Affeiçoa, suspende, e edifica-, 
Que o mais discreto extremo 
E' saber agradar ao Rei supremo. 



22 Soror Violante do Ceo 



Sois Silva generosa, 
Sois iliustre, sois sabia, sois benina, 
Sois digna, e sois ditosa, 
Sois prudente, sois santa, e sois divina, 
E enfim sois tam amada. 
Que repetidas vezes sois Prelada. 



Lograe eternidades 
Esse raro valor, esse )uizo 
Entre as mais santidades, 
Que habitam no ditoso paraíso 
Do Salvador, aonde 
O divino Gusmão tal prenda esconde. 



E vós, Cysnes canoros. 
Que habitaes no cristal do claro Tejo, 
Solemnizae a coros 
A rara discrição, que amando invejo, 
Pois eu não chego a tanto, 
Que transforme em louvor meu justo espanto. 



XXIV 
ELEGIA 

[A morte do sereníssimo senhor D. Duarte, Infante de 
Portugal, e irmão do senhor Rei D. João IV de glo- 
riosa memoria]. 

Chore o valor, desmaie-se o alento, 
Sinta a razão, suspenda-se o sentido. 
Reine o pezar, impere o sentimento, 



Poesias 2,3 



Vendo a breve despojo reduzido 
O maior vencedor, o mais triumphante, 
'Que foi da mesma inveja conhecido. 



O que por ser de Portugal Infante, 
Objecto foi da acção mais rigorosa, 
•Que chorou justamente affecto amante. 



Vivia a competência temerosa, 
Invejoso o valor, teimosa a ira, 
Livre o vigor, a inveja poderosa; 



E como cada qual sempre delira, 
•Cada qual decretou, que se acabasse 
A vida, por que amor chora, e suspira. 



Quem vio que com rigor se terminasse 
A grandeza, o valor, a valentia, 
Que era razão, que o mundo eternizasse 1 



Mas já que eternizar-se não podia 
Tam divino valor, por ser humano, 
Não lhe apressara o fim a tirania. 



Mas como fora o ódio tam tirano, 
Se não se resolvera a desatinos, 
Se não seguira as leis do cego engano ! 



Tirar do mundo os méritos mais dignos, 
E tirar-lhe primeiro a liberdade 
Rigores são de humano peito indignos. 



«4 Soror Violante do Ceo 



Mas que importa acabar a humanidade, 
Se ííca a alma em tudo mais luzida 
No lugar immortal da eternidade ! 



Que importa que feneça a mortal vida 
Se fica para sempre a soberana 
Na mesma eternidade introduzida ! 



Oh ! tu, augusto Rei, deidade humana. 
Quarto no nome, e no valor primeiro, 
Libertador da Pátria Lusitana : 



Tu, que como Monarca verdadeiro, 
Extinguiste o poder de uma violência. 
Terminaste o rigor de um cativeiro, 



Não sintas de Duarte a dura ausência. 
Considera, Senhor, que tens agora 
Mais útil seu favor, que na assistência. 



Considera, que a perda foi melhora, 
Pois tens na melhor Corte um assistente. 
Que a divino poder favor implora. 



Considera, que vive eternamente 
Teu venturoso irmão, onde á ventura 
Vinculado está sempre o permanente. 

E tu, que absorto estás na luz mais pura,. 
Generoso Duarte, excelso Infante, 
Possuindo a bonança mais segura, 



Poesias 25 



Lembra-te de evitar o naufragante, 
De quem no mar do mundo impetuoso 
Sabes, que fica ainda navegante. 



Lembra-te de evitar o tormentoso, 
Conservar o tranquillo, e sossegado 
Apezar do contrario rigoroso. 



Mostra de Portugal tanto cuidado, 
Que fique o pensamento do homicida 
Com seu próprio delicto castigado. 



Seja a tua vitoria dividida, 
Porque seja mais grande essa vitoria, 
Logrando tu no ceo immortal gloria, 
Tendo João no mundo immortal vida. 



XXV 
E PISTOLA 

[A senhora D. Isabel de Castro na morte da Rainha 
nossa Senhora D. Luija de Gusmão, que faleceu 
em 2j de fevereiro de 1666]. 

Se para exagerar meu sentimento 
Tivera, oh discretíssima senhora, 
Um átomo do vosso entendimento, 



Soubéreis quanto sente, e quanto chora 
Quem chegou a perder não só Rainha, 
Se não também benigna protectora. 



26 Soror Violante do Ceo 



Porém quem de divina tanto tinha 
Nas virtudes e prendas, que lograva, 
Só viver com divinos lhe convinha. 



Quem como soberana se ostentava 

Nas perfeições, que rara possuia, 
Entre as humanidades não se achava. 



Agora sim, que em firme Monarquia 
O premio logrará, que cuidadosa 
Com tam santos excessos adquiria. 



Agora sim, que sempre venturosa 
A vista empregará na Magestade, 
Que na Corte immortal vive gloriosa. 



Agora sim, que aquella divindade, 
Que adora o Seraphim sempre amoroso, 
Verá quanto durar a eternidade. 



Agora sim, que ao Rei mais poderoso 
Rogará de mais perto pela vida 
De terno tam querido, e venturoso. 



Agora sim, que em glorias suspendida 
Terá de Portugal tanta lembrança. 
Como de Portugal é bem sentida. 



Vós, illustre Isabel, que sem mudança 
Soubestes ostentar amor tam fino 
Ora fosse em tormenta, ora em bonança. 



Poesias 27 



Vós, que por ter discurso peregrino 
Destes a vosso amor objecto tanto, 
Que passava de humano a ser divino. 



Suspendei a corrente a vosso pranto. 
Pois oífendeis com elle a quem na gloria 
Ouvindo está, senhora, eterno canto. 

Alivio seja sempre esta memoria 
Do excessivo pezar, que solicita 
Levar de tantas prendas a vitoria. 

Contemplae de Luiza a eterna dita, 
Se quereis do pezar ficar triumphante, 
E faça-vos o Ceo quasi infinita : 



— Vossa firme oradora, Sor Violante. 



Soror Maria do Ceo 



I — ALGUNS TRECHOS EM PROSA 



DAS € AVES ILLUSTRADAS » 



A ANDORINHA A VIGARIA DA CASA 

Em a mesma manhã, e em os mesmos 
claustros, sahia da sua cella a segunda Prelada 
daquelle mosteiro, quando o enfadonho canto 
das andorinhas saudava ao sol : calae, dizia a 
religiosa, calae andorinhas, que estrugis com 
esse desagradável canto. Aqui respondeu 
uma : mandae callar as freiras, e deixae cantar 
as aves ; tendes por vossa conta o silencio, e 
qualquer palavra em a noite vos deve estrugir 
mais, que quantas andorinhas ha em a manhã: 
a palavra, que ouvirdes em a hora prohibida, 
não só vos ha de entrar pelos ouvidos, mas 
vos ha de ferir por elles', até as aves guardam 
respeito á noite para emudecerem; guardem-no 
ao silencio para não falarem ; em a hora de 
callar está a ave muda; como parecerá em 
esta hora a religiosa palreira ? Em a noite até 
a fera soffre o bramido ; soffra a racional a 
voz; a que quiser falar a toda a hora, fale 
com suas irmãs nas dispensadas, e fale com 
Deos nas prohibidas; pergunte-lhe com a alma 
santa, aonde passa a sesta, e pergunte-lhe 
também, aonde passa.- a noite, e alli em a sole- 



32 Soror Maria do Ceo 



dade do seu silencio lhe falará ao ouvido. 
Quis Deus vir ao mundo a resgatar o género 
humano, e como Senhor de todas as horas 
podia eleger a que quisesse para esta maior 
fineza de seu amor, não escolheo a da madru- 
gada, sendo a mais pura ; não escolheo a da 
manhã, sendo a mais alegre ; não escolheo a 
do meio dia, sendo a mais perfeita ; não escolheo 
a da tarde, sendo a mais frequentada \ mas 
escolheu a da meia noite, por ser a mais 
quieta. Tanto ama Deus o silencio, que pre- 
feriu a hora do silencio a todas as outras, e 
nem quando vinha a ostentar finezas, bus- 
cou bulicios: Dum médium sUentium tenerent 
omnia. De boa razão as religiosas em nenhum 
tempo deviam falar mais que o preciso, e não 
cuideis, que as aperto muito, porque ainda 
assim lhes não deixo pouco : falar em hora de 
recreação é preciso, porque já para isso está 
dedicada, e é um desafogo, em que convalece 
o animo dos apertos da mortificação para 
tornar a ella vigoroso : é preciso falar com as 
enfermas, ou já para consola-las, ou já para 
diverti-las; é preciso falar em as occupações do 
oíficio próprio, porque é obrigação o adminis- 
tra-lo : é preciso o falar ou com a parenta, ou 
com a amiga, que me busca, porque o ser 
religiosa não me desobriga de ser politica, e 
até aos do ermo se extendeu em muitas occa- 
sióes esta urbanidade ; mas advirto-vos a todas 
que em a recreação a vossa historia ha de ser 
espiritual, a vossa graça ha de ser sizuda ; ás 
doentes haveis divertir, mas não relaxar; em 
o administrar os officios não mandem com 
estrondo, sirvam com modéstia; com as secula- 
res falem como religiosas, dêemlhe a pratica 
de Deus, e não lhe tomem a do mundo, e 
sempre caridade com o próximo : com as 



I — Alguns trechos em prosa 33 



doentes não murmurem das sans ; com as que 
trabalham não murmurem das que descansam; 
com as de fora não murmurem das de casa, e 
em a recreação não digam mal de nada. Vede 
agora, senhora, se havendo tanto em que falar 
no preciso, tem desculpa a religiosa em falar o 
escusado, e dahi passar ao prohibido. 

Uma de profissão Carmelita descalça, sendo 
mui nimia em os escrúpulos, doença do seu sexo, 
ao depois de cumprir com as mais em o coro 
a obrigação do officio divino, o tornava a rezar 
em a cella na hora do silencio, e por satisfazer 
melhor com o seu escrúpulo, ou com a sua 
ignorância o rezava alto, e lhe aconteceu sentir 
em si aquella vivente, e asquerosa praga, que 
Santa Thereza deixou para despertador dos 
defeitos de suas filhas. Gomo não conhecia 
nenhum daquelles defeitos mais notáveis, a 
que corresponde aquelle castigo, foi-se ao seu 
confessor com esta afflição a dar lhe conta da 
novidade ; o padre, que a venerava perfeita, 
porque o era, a examinou muito miudamente, 
e vindo a contar-lhe o modo, com que rezava 
o officio divino, entendeu ser este o defeito, de 
que a Santa a avisava ; mandou-lhe que não 
rezasse o officio mais que com a Comuni- 
dade, reprehendendo-a de que estando em 
silencio, se atrevesse a dizê-lo em tom, que 
fosse ouvida : obedeceu a boa religiosa, e logo 
se achou livre do vivente castigo que a avisava. 
Em hora de silencio, em tempo de quietação 
nem por boca de David se deve falar alto, 
nem as palavras de Deus se hão de pronunciar 
com estrondo, e a ser de outra sorte, até o 
que o escrúpulo busca para satisfação, se 
converte em culpa. 

Em certa congregação de religiosos perfeitos 
chegou, como é estilo, o zelador a denunciar 



34 Soror Maria do Ceo 



ao prelado as faltas, em que os religiosos 
tinham cabido em aquelle dia; e parecendo-lhe 
que lhe não ficava mais que dizer, se des- 
pedia ; aqui chegou a elle um dos que assis- 
tiam, e lhe disse : adverti que vos falta 
denunciar o como fulano falou na hora do 
silencio. Respondeu o zelador: foi uma pala- 
vra só. O prelado, que percebeu tudo, acudiu: 
e pois ainda havia de ser mais que uma pala- 
vra ? E logo alli lhe deu a penitencia ; assim 
faz quem fia delgado. Senhora, não fieis em 
estopa, se podeis em holanda; com tudo não 
hei de dizer-vos que uma palavra quebranta a 
lei, porque assim como um bocado não quebra 
o jejum, assim uma palavra não quebranta o 
silencio : este caso é de perfeição, não de rigor. 
Fazei, senhora, guardar o silencio, porque ahi 
assiste Deus, aonde o ha. A alma santa pedia 
a seu esposo um zéfiro brando para regar as 
flores do seu horto; não lhe pedia o vento^ 
que faz ruido; não lhe pedia a agua, que faz 
estrondo; não lhe pedia o sol, que faz publici- 
dade; nada disto lhe pedia para crear as suas 
flores, para fazer crescer as suas virtudes ; 
mas só lhe pedia um zéfiro brando, uma res- 
piração mansa, uma viração muda, porque 
tudo isto indica um silencio quieto, e aonde 
está o silencio, ahi está Deus, e aonde está 
Deus, ahi crescem as virtudes. Tudo isto, 
senhora, vos hei trazido para pordes muito 
cuidado em fazerdes guardar esta observância^ 
Fazei-vos obedecer, que sois prelada ; a pri- 
meira se ha de respeitar como a deusa, a 
segunda como a primeira, e quando as virdes 
comvosco menos attentas, menos rendidas, 
dizei-lhe com império o que Christo ao discí- 
pulo Felippe : Quem me vê a mim, vê a meu 
pai; Irmãs quem me vê a mim, vê a minha 



I — Alguns trechos em prosa 35 



maior, a mesma sou para o respeito, a mesma 
para a veneração. 

Com as serventes do mosteiro, pois estão 
no vosso dominio, tende muita conta ; um 
mosteiro é uma republica pequena ; em esta 
se o povo não é bem regido, tudo vae desor- 
denado; trazei-as humilhadas, pois são servas; 
se as castigardes, seja com brandura; se as 
favorecerdes, seja com moderação, porque 
aqui o desvanecimento as não faça altivas, e 
lá a demasia as não deixe irritadas ; fazei 
muito porque nunca passem da sua esfera, 
que nella entenderão nasceram para servir : 
antes que por mal, as leveis por bem, que o 
rigor faz servos inimigos, e o agrado escravos 
voluntários; sede para todas, e todas serão 
para vós ; louvae muito as que forem melhores 
seguindo a opinião do adagio em a condição 
da virtude ; mandae-as servir, mas não adorar, 
lembrando vos que as religiosas farão muito 
mal o papel de Ídolos; deixae esse para os 
seculares, que se fazem adorar dos criados 
como deuses ; a cujo propósito vos contarei 
um apologo, que não desmerece por fabula, o 
que merece por exemplo. 

Em certa corte da Ásia se convidaram os 
grandes, e poderosos para fazerem entre todos 
um banquete: foram as prevenções tam soadas, 
que até ao Ceo chegou o seu estrondo : teve 
Júpiter, o deus dos deuses, curiosidade de 
achar-se neste convite, aonde só faltaria o seu 
néctar: cortou de uma nuvem uma capa, e 
baixou de embuço; nesta forma entrou, 
quando já as mesas estavam postas, e os 
convidados a ellas : disse ser estrangeiro, e 
pediu licença para assistir em aquella solemni- 
dade : elles mui pagos da sua pessoa lhe 
deram entre si assento : em o melhor do ban- 



3G Soror Maria do Ceo 



quete perguntou Júpiter aos circunstantes: 
É para quem sam as abundantes sobras que 
aqui ficam ? Para os criados, responderam 
elles : E esses pratos mais mimosos, que da 
mesa mandais ? Para nossas mulheres, torna- 
ram os convidados: E os que reservais? Para 
os amigos ausentes, responderam os grandes: 
E este ajoelhar, estas prostrações, estas vénias, 
estas adorações, que aqui se fazem, para 
quem sam ? Para nós, tornaram os convida- 
dos. Aqui Júpiter ' dando uma pancada na 
mesa, que fez estremecer a terra, e aturdir os 
homens, rasgando o embuço, disse: E que 
deixais para mim ? Os homens, que em a 
acção e em a luz conheceram a Júpiter, pros- 
trados a seus pés não sabiam que dizer-lhe; 
elle com irado semblante lhes proferio estas 
palavras : Se não quereis contra vós o raio de 
Jove, deixai os banquetes para os homens, e 
as adorações para os deuses. Aqui se fez 
desapparecido. 

Agora ao mesmo propósito vos contarei um 
successo, que não é apologo. 

Em Hespanha um poderoso admittiu em 
sua casa um criado pouco pratico nos estilos 
dos grandes, por se haver creado em uma 
aldeia ; succedeu na mesma manhã, em que 
entrou, levá-lo o senhor com outros a acom- 
panhá-lo a uma igreja, que estava fora da 
cidade, aonde se fazia festa, a que elle queria 
assistir: era a festa de tarde, e o fidalgo 
antes de chegar ao lugar, quis jantar em o 
caminho, para o que já ia prevenido. Notou 
o aldeano o estarem todos em pé, e descober- 
tos enquanto elle comeu, o ajoelhar ao dar a 
copa, e jarro, e todas as mais cerimonias reve- 
rentes ; e já que chegavam ao santuário, per- 
guntou o novo criado a seu amo com mais 



I — Alguns trechos em prosa 37 



malícia, que singeleza : senhor, que heide fazer 
quando entrar na igreja ? Isso, respondeu o 
fidalgo indignado, isso pergunta um catholico ? 
Pois, senhor, tornou o moço, eu a vós desca- 
rapucei-me, ajoelhei-me, fiz tantas mesuras, que 
me fica para lá ? Aqui o amo dando-lhe o riso: 
(gastava bom humor) fica-te o bater nos peitos. 

Este successo, senhora, e este apologo era 
para os grandes melhor, que para as religiosas, 
porque me parece não ha já freira, que se deixa 
adorar, ainda que haja religiosa, que se deixa 
servir; e a não ser fora de meu intento, muito 
podéra neste particular dizer ao mundo; e que 
dissera Deus, se assim como em a fabula 
Júpiter se dignou de falar aos convidados, se 
dignara de falar aos homens ? 

Tende, senhora, muito cuidado em examinar 
o vosso mulherio nisto da lei de Deus, que ha 
pessoas muito ladinas em a pratica, e muito 
ignorantes em a doutrina chrístã ; ellas tem 
obrigação de saber, e vós de saber, se sabem; 
poderão vir do mundo rudes ; vede vós em 
Sião, se estão filhas de Babylonia ; não vos 
fieis em as verdes espertas, nem ainda bem 
inclinadas, que se lhes faltou a doutrina, pode- 
rão amar a Deus pelo bom natural, e ignorar 
as suas cousas pela má educação; para servir, 
serão mulheres vivas, para a confissão mulhe- 
res brutas ; poderá haver alguma, que saiba 
quantos pontos tem o assucar, e ignore quan- 
tos artigos tem a fé. Vigiae o seu traje, não 
sendo que servindo religiosas, vistam coma 
seculares ; pelos senhores não se conhecem os 
servos, mas pelos servos os senhores ; tudo o 
que nellas for curiosidade, será em vós des- 
douro; trajem de sorte, que quem as vir a 
ellas, vos conheça a vós : o maior brazão, que 
tem, é o servirem em a casa de Deus ; tragam 



38 Soror Maria do Ceo 



a sua libré. Peço-vos muito, que as conserveis 
mui conformes, porque a desunião das servas 
não perturbe a paz das senhoras ; se se vos 
transluzir algum dissabor, chegai-as a compor, 
antes que cheguem a pelejar. Se o íris appa- 
recera antes da tempestade, não houvera 
aquella universal rebelião das aguas, aonde a 
sua braveza afogou o mundo. Não se limite o 
vosso cuidado nesta matéria só ás serventes, 
passe também ás religiosas, que a tudo se 
extende a vossa auctoridade •, se as virdes 
desunidas, levai as mais perfeitas pelo escrú- 
pulo, e as mais entendidas pela razão, as mais 
azedas pelo carinho, as mais brandas pelo 
natural, e desta sorte as deixareis em paz, 
que é grande mestra a manha. Um mosteiro 
sem união é como um relógio desconcertado, 
tudo é tempo confuso, horas perdidas, cordas 
quebradas ; uma congregação de religiosas é 
um retrato d* ceo, se tem paz; e é um bos- 
quejo do inferno, se a não tem ; o que Deus 
nellas mais ama, é a união, porque sem união 
não ha virtude, não ha humildade em quem 
se sente, não ha sofrimento em quem se 
queixa, não ha caridade em quem se vinga, 
não ha mansidão em cjuem grita, não ha 
oração em quem se inquieta. 



A CHAMARIZ A VIGARIA DO CORO 

Em o illustrissimo dia para as aves, desde a 
sua janela, achando-a ainda recolhida, falava 
assim uma chamariz á Vigaria do coro : levan- 
tai-vos, senhora, que ja venho de chamar as 



I — Alguns trechos em prosa 3g 



aves, para que louvem a seu Greador, e agora 
vos chamo, para que louveis a vosso Deus : 
não é bem dêem quinau os brutos aos racio- 
naes, as aves ás esposas; componde vos que 
Já as flores se toucaram de pérolas, os montes 
se vestiram de ouro e grã para esperar o sol, 
e a vós vos espera o ceo ; quem tem amores, 
não dorme-, se vós tivéreis amor, madrugáreis; 
sono e amor não se dão juntos, porque um 
sempre arde, outro nunca opera; diz lá o 
castelhano: « Quatro horas duerme el santo, 
seis el que no es tanto, siete el escudero, ocho 
el cavalíero &c. » mas não diz quantas dorme 
o amante, porque o amante nunca dorme^ na 
frase de santo, dá-lhe quatro horas, mas na 
frase de amante não lhe achou hora, porque 
este a toda a hora vela ; o sono não só é des- 
crédito do amor, mas perigo do entendimento; 
entorpece nesta demasia, que se fazem gros- 
seiros os sentidos: sem a lima dos sentimentos 
o que mais dorme, menos vive, pois furta á 
vida quanto dá ao sono, e enquanto não 
acorda, é um morto sem sepultura. Levantai- 
vos a louvar a Deus que Já os anjos vos espe- 
ram em o coro, e a que faltar, sendo moça, 
mandai chamá-la; não me digais' que pode 
enfadar-se ; de que se ha de enfadar ? De a 
chamardes, para que louve a Deus ? A cousa 
mais santa, a cousa mais útil, a cousa mais 
honrosa ? Antes me parece tem que agradecer- 
vos o cuidado na sua obrigação; a vossa é 
tam alta, como diz o officio, que administrais, 
officio divino, certo que não merecia para 
administrá-lo mulher humana ; se assim como 
ha Deus, houvera deusa, só esta era digna de 
administrar o tal officio. Andae sempre puri- 
ficada para iam alto ministério, sempre Justa, 
sempre clara, Já que a natureza vos fez uma 



40 Soror Maria do Ceo 



mulher, a graça vos assemelhe a uma divin- 
dade. Adverti, senhora, que na reza haveis 
de ter pausa, silencio e attenção; attenção a 
Deus, em cuja presença estaes •, silencio, por- 
que enquanto se fala com o Creador, não se 
fala com as creaturas; pausa, porque os 
verbos, que pronunciaes, sam divinos, e devem 
ser mui explicados : coros sem pausa sam 
palavras de Deus em confusão de vozes: olhae 
aos anjos cantando em ò ceo aquelle divino 
motete : « Santo, Santo, Santo » ; pois porque 
não dizem estes músicos : Santíssimo, que é o 
mesmo que três vezes Santo, e é o titulo, que 
se dá ao mesmo Deus sacramentado ? Sabeis 
porquê ? Porque nas três vezes Santo vam 
três pausas, em santíssimo uma ; e como os 
anjos cantam a coros, e na presença de Deus, 
buscam uma letra, que seja a mais pausada-, 
ainda que ambas sejam divinas, seja santís- 
simo por antonomásia, e seja três vezes Santo 
em o coro; imitae estes músicos angélicos, 
pois comvosco louvam ao Senhor, que louvais. 
Pausa em o oíBcio divino ; em duas palavras 
vos direi, qual esta attenção ha de ser, não 
attendendo a outra cousa alguma, toda trans- 
formada na reza, no canto, e em Deus, a 
quem se tributa canto, e reza ; aqui com Deus 
se fala, e aonde se fala com Deus, não se 
fala com outrem. Instae muito em que não 
haja desconcerto; falar com o livro em latim, 
e com as que me ficam ao lado em português, 
com os pensamentos em todas as linguas, isso 
será fazer de uma hora de Deus uma torre de 
Babylonia ; se recolhermos os pensamentos, 
logo recolheremos as palavras, e aonde aquelles 
não devem fazer ruido em a mente, como 
soarão estas em os ouvidos ? Adverti, senhora, 
que ali uma palavra escusada é uma culpa 



I — Alguns trechos em prosa 41 



commettida ; logo para que havemos misturar 
peccados com pérolas ? As palavras de David 
sem thesouros, deixemo-los correr sem os 
embaraçar. 



o ROUXINOL Ás SACRISTÃS 

Entrava pelo coro a sacristã-mór com as 
suas companheiras, e uma liie dizia: Vós, 
senhora, honraes este officio. Aqui um rouxi- 
nol, que sobre uma roseira, que fazia cortina 
á janella do coro, deixou de cantar á rosa por 
responder á freira: Reparae, disse, o como 
falais, que vós outras não honraes o officio ; o 
officio é o que vos honra a vós ^ o officio, 
senhoras, vos faz umas sacerdotizas cathoiicas,' 
umas coadjutoras dos ministros de Christo' 
umas immediatas aos sacerdotes, umas aias da 
Igreja, e umas místicas do altar ; o officio vos 
faz tratar as vestimentas sagradas, os amictos 
puros, e os sanguinhos santificados; vede 
agora, se vós honraes o officio, ou se o officio 
vos honra a vós? Certo que de tal commu- 
nicaçáo, se os anjos vos não ajudarão invisí- 
veis, vos tiveram inveja declarados; o officio 
vos faz umas virgens prudentes com vantagens 
ás do evangelho ; ellas lá cevavam as alampa- 
das para se justificarem a si, vós cevai-las por 
alumiar ao Senhor; lá cada qual cevava só a 
sua, vós cevais todas ; ellas negaram o óleo ás 
companheiras, porque lhe não faltaste para a 
ocasião, vós sem a nota de escassas proveis o 
óleo para todas as ocasiões, para todos os 
dias, para todas as horas, com que o evange^ 
lho as faz a ellas prudentes, e a vós o officio 



42 Soror Maria do Ceo 



prudentíssimas ; olhae o que lhe deveis. Lem- 
bra-me a mim que as Vestaes só por conser- 
varem o fogo, a que chamavam eterno, inútil, 
porque nem alumiava a Deus, nem ainda aos 
deuses, antes o tinham subterrado debaixo de 
uma lagem, eram por esta conservação tam 
veneradas, que quando por alguma ocasião 
importante á sua mesma autoridade sahiam 
da sua clausura, se na rua as topava a justiça 
com algum delinquente caminhando ao suppli- 
cio, ficava o condenado absolto do crime, e 
livre da morte; assim usava a gentilidade com 
quem merecia ver o rosto a mulheres, que 
conservavam aquelle fogo ; tirae agora a con- 
sequência, e vede a veneração, que podeis 
alegar cevando estas alampadas. 

Senhoras, em os mais officios servis a Deus 
em as creaturas, neste servis a Deus em Deus; 
os outros podem- vos deixar santas, este deixa- 
vos endeusadas : tocais os ornatos dos altares, 
as vestimentas dos sacerdotes mais veneráveis 
que o santo Ephod; com este se servia a um 
Deus em o « sancta sanctorum » escondido, e com 
aquellas se serve a um Deus em o sacramento 
manifesto : a pureza, senhoras, com que deveis 
tratar cousas tam altas, deixo-a á vossa chris- 
tandade; não falo em pureza de pessoas, que 
isso seria desconhecer as açucenas, falo em 
pureza de virtudes : essas mãos, que tocam 
adornos tam sagrados, devem andar cheias de 
boas obras; esses pés, que se encaminham a 
servir a igreja, não ham de rotroceder em 
inferiores passos ; essa mente, invento de tam 
ditoso adorno, não se ha de profanar em pen- 
samentos inúteis ; toda vós estais deificadas 
pelo contacto, e deveis deificar-vos pelas virtu- 
des ; assim vos haveis de acear a vós, vede 
agora o como haveis de acear o coro. Estes 



I — Alguns trechos em prosa 43 



dous logares haveis de ter tam aceados, que 
mais vos ha de doer um pó nelles, que um 
argueiro em os olhos ; eu vos dou licença que 
tragais o vosso templo tam aceado, como os 
)apóes os seus palácios; de um se conta que 
porque achou em uma das casas principaes 
uma casca de fruta, matou a criada, que tinha 
a sua conta a sua limpeza; eu, senhora, não 
vos digo que castigueis vossas companheiras 
como gentia, nias advirto-vos que se houver 
algum descuido, as reprendais como perfeita. 
Para o coro e igreja se fizeram os aromas, os 
perfumes, e suavidades; ali todo o aceio é 
limitado, nenhum é nimio, e todas as vezes 
que queimardes as pastilhas em o fogo, fazei 
por queimar o coração em o amor, que o fumo 
deste sacrifício ainda ha de subir mais alto 
que o do incenso ; tende a vossa igreja com o 
aceio, que se deve a um templo de Deus, 
e ouvi este caso, para que delle espereis ó 
premio. 

Conta se em o livro das relações da Pérsia 
que compôs o Padre Fr. António de Gouveá 
religioso de Santo Agostinho, que tinham 
estes um convento em a cidade de iMombaça, 
e delle repartiam religiosos, para residências, 
que tinham por aquella costa, era uma em 
Patê; succedeu estar nesta um religioso cha- 
mado Fr. Diogo do Espirito Santo; este com 
sua doutrina e exemplo havia feito por aquella 
costa grandes serviços a Deus; entre os cria- 
dos de sua casa tinha um moço natural da 
terra, que pela conversação sabia a lingua ; era 
este mouro por nome Mafamede naturalmente 
bem inclinado, e afiFeiçoado aos portugueses, e 
ás suas cousas, e como a tal lhe encommen- 
dava o Padre Fr. Diogo muitas vezes o con- 
certar a igreja, enramá-la, e juncá-la em os 



44 Soror Maria do Ceo 



dias de festa, o que elle fazia com tanta curio- 
sidade, que dava gosto aos padres, e aos mais 
christãos ; ausentou-se por uns dias por ser 
preciso acudir a outra pane, continuando o 
mouro em o cuidado da igreja, que lhe 
encommendara, assim a varria, e enramava 
todos os sábados: succedeu adoecer antes de 
chegar o padre, e apertando a enfermidade 
mandou chamar um dos portugueses, que em 
Patê ficaram, e lhe disse : Eu sei que hei de 
morrer desta doença, porque um padre do 
mesmo habito que o nosso, mas de mui vene- 
rável presença veiu ter comigo esta noite, e 
me disse ; porque me não fazia christão, como 
me aconselhava Fr. Diogo? Que soubesse 
morria daquella doença, e se fosse em a seita 
de Mafoma, me havia de perder para sempre ; 
por tanto me aconselhava me fizesse logo 
christão, e que elle era muito meu amigo, e 
me estava muito obrigado pelo serviço, que 
lhe fazia em a sua igreja ; era de Santo Agos- 
tinho. Eu lhe prometti de tomar logo a vossa 
lei, rematou o Mouro, pedindo ao português 
com muita instancia que o baptizasse. Elle 
ainda que muito bom christão e devoto, fez 
pouco caso do que o mouro lhe dizia, pare- 
cendo-lhe ser tudo medo da enfermidade, e 
não desejos de sua conversão, e assim lhe 
disse não tivesse temor de morrer em aquella 
ocasião, e que o padre vinha brevemente, e 
logo o catequizaria, e daria o baptismo, e com 
isto se tornou para a sua pousada. A noite 
seguinte, como o mouro affirmou, lhe tornou a 
apparecer a mesma visão repetindo-lhe o que 
lhe havia dito, acrescentando tornasse a chamar 
o português, porque se o não havia baptizado, 
fora por não dar-lhe credito, mas que se ins- 
tasse, o faria christão. Fê-lo assim o mouro, 



I — Alguns trechos em prosa 45 



e chamando ao português, lhe repetiu a 
segunda visão, e que nella lhe disseram, se o 
não baptizasse logo, daria conta a Deus da 
sua alma. O christão temente a Deus, vendo 
não ser aquelle negocio para deferido, o cate- 
quizou o melhor que soube, declarando-lhe os 
principaes mistérios de nossa fé. O mouro 
por se ver livre de mulher e filhos, que o 
rodeavam, se passou para a casa do português, 
não permittindo ser mais visto de parente 
algum ; toda aquella noite conversou na paixão 
de Christo, e vendo-se chegado ao fim da vida 
recebeu o baptismo da mão do português, 
sem que o demónio se esquecesse de o moles- 
tar com terríveis visões, mostrando-se-lhe em 
forma de negros disformes, que com azagaias 
o queriam matar; defendeu-se elle com o 
escudo dos nomes de Jesus e Maria, que não 
largou da bocca até acabar a vida, e ir gozar 
da visão dè Deus, que de tam pequena oca- 
sião, como era o serviço, que este mouro fazia 
á sua igreja, lhe teceu a coroa da eternidade 
por meio de sua conversão, merecendo que o 
mesmo Santo Agostinho o viesse exhortar a 
ella. 

Assim premeia Deus a quem cuida dos seus 
altares, a quem se esmera em a sua igreja, a 
quem se disvela em seu culto ; dos gentios faz 
catholicos, dos catholicos fará santos : não 
receeis os gastos do officio, que a mão de 
Deus é mui liberal para ajudar-vos, se a vossa 
se abrir para seu obsequio ; gastai ahi tudo o 
que poderdes com o cabedal, e tudo o que 
não poderdes com a vontade ; nessa ofFerecei 
em o coro e igreja todo o ouro da America, 
toda a prata do Potosi, todos os topasios da 
Etiópia, todos os rubins de Ceilão, todos os 
diamantes da Pérsia, todas as pérolas do sul. 



46 Soror Maria do Ceo 



e neste sacrifício do desejo merecereis em a 
vontade o que merecerieis em a obra; mais 
deu a viuva do templo em um real, que os 
grandes de Jerusalém em muitos talentos, por- 
que ella deu o que tinha com a mão, e o que 
não tinha com o desejo. A igreja é a gloria 
da terra ^ fazei que a vossa igreja cheire á 
gloria, fazei o paraiso nas boninas, e ceo nas 
fragrâncias-, principalmente vos encomendo 
sejais mui liberal com o incenso •, aprendei de 
Alexandre com os templos gentílicos para o 
de Deus verdadeiro: este Principe em tudo 
magno gastava com tal excesso o incenso nos 
sacrifícios, que seu aio Leonidas lhe disse se 
fosse á mão em a demasia, com que o distri- 
buia, pois não era senhor da terra, em que se 
creava •, andou o tempo, e a poucos voos se 
fez Alexandre senhor das Arábias, logo man- 
dou a Leonidas um navio carregado do dito 
aroma, dizendo-lhe gastasse sem dó, pois já 
estava senhor das terras, que o produziam. 
E' porque aqui vem a propósito, vos quero 
contar o deste fumo de Deos, ou deste Deos 
dos fumos. 

Arábia a Feliz é a pátria do incenso ; alli 
nasce em a religião de Sabá, nome, que 
segundo os gregos significa mistério; dizem do 
terreno, aonde se cria, ser entre roxo, e 
branco; nelle se levantam altos montes, em 
cuja eminência começam a apparecer estas 
aromáticas arvores, que se continuam até o 

Elano, nascidas, sem que algum as plante, 
anhadas com claras, e caudalosas fontes ; 
dizem serem três mil, e não mais, as famílias, 
que por successão appropriam a si o direito 
destas arvores, e por isso sam chamados os 
sagrados, e não se mancham com trato impuro, 
nem de mortuário, quando podara estas arvo- 



I — Alguns trechos em prosa 47 



res, e assim se augmenta o lucro com a reli- 
gião. Costumam colher o incenso uma vez por 
anno, porque havia pouca occasião de vendê-lo, 
mas ao depois o lucro duplicou a vindima; a 
primeira e natural é vezinha ao nascimento da 
canicula com o mais ardente calor, cortando 
por onde parece estar mais cheia, e estendida 
a delgadíssima casca, daqui sae, não logo 
depois de ferida, uma escuma copiosa; esta se 
coalha, e endurece recebida em um lugar 
accomodado, ou em esteira de palma, ou em 
uma eira cercada de pannos ; daquella maneira 
é mui puro, desta mais pesado; o que se pega 
á arvore, se tira, e desfaz com ferro : dividida 
a selva em partes, nenhum guarda as arvores 
feridas, nenhum furta ao outro; tudo está 
seguro; com innocencia correspondente reco- 
Ihe-se em o Outono o que sae das arvores em 
o estio, que é puro e branco. A segunda 
vindima é em o verão, e para ella cortam a 
casca das arvores em inverno ; este sae ver- 
melho, e não se pôde comparar com o primeiro;, 
áquelle chamam Garfecto, e a este Damiato : 
cre-se ser mais branco o das arvores novas y 
porém o das antigas mais cheiroso: entre os 
europeus se falsifica com goma de rezina 
branca com a semelhança, mas prova-se coni> 
a brancura, com o tamanho, e com o fogo, 
que logo arde, e também que não haja che- 
gado aos dentes, quando se faça migalhas. 
Dei-vos, senhora, esta noticia, para* que saibais^ 
ou tenhais conhecimento do aroma, que a 
Deos mandais sacrificar todos os dias. 

Muito cuidado, senhora, com os vossos tem- 
plos, muito ornato, muito aceio, muito fumo^ 
pois até a gentilidade vos dá este particular 
exemplo. Do legislador Garondas escreve 
Estobeo haver feito lei, em que condenava 



48 Soror Maria do Ceo 



por infame ao que levantasse casa de maior 
pompa, que os templos dos deuses. Oh quan- 
tos catholicos se poderão confundir com esta 
memoria, pois á vista de tantas Igrejas po- 
bres, e arruinadas estão levantando palácios á 
soberba do alheio no empréstimo, do próprio 
na vaidade, e o peior é que alguns com os 
frutos das commendas ornaram as suas pare- 
des com teias de damasco, e brocado, e as 
Igrejas, a cujo respeito logram estes frutos, 
estão cobertas de teias de aranha, usando com 
ellas dous aggravos, um na indecencia, outro 
na ingratidão ! Oh quantas imagens estão em 
os altares vestidas de velho, e quantas vaido- 
sas em os estrados revestidas de tissu ! 
Quantos Christos celebrando o tremendo sa- 
crifício com vestes pobres, quantas damas 
passeando as ruas com roupas bordadas ! 
Pois que dizeis a isto, senhora? Não é pare- 
cerem os gentios fieis, e os catholicos gentios? 
Oh quanto Deus sofre ! Ao propósito de que 
tudo o melhor se deve a Deus, vos trarei um 
conto, que ainda que pareça apologo de 
Esopo, é menos antigo. 

Esgravatando um gallo em a terra a ver, se 
achava alguma cousa que comer; que nem os 
brutos se contentam com o que lhe dão, achou 
uma pérola, um velório, e uma pedra de sal; 
como nenhum destes haveres era mantimento 
para elle, e de boa vontade os trocara por um 
grão de milho, pois pérolas a gallos é o mesmo, 
que margaritas a porcos, que para cada qual 
não é melhor o melhor, senão o que melhor 
lhe serve, ficou indeterminado em o que faria 
destes achados, sendo a pérola o que lhe dava 
mais cuidado, porque além de o ser, era uma 
formosa margarita: resolveu-se em ir consultar 
a águia, e acertou; que o buscar o conselho 



I — Alguns trechos em prosa 49 



dos sábios é segurar o acerto das acções ; che- 
gou ao alto ninho, e relatando o successo, 
accrescentou estar duvidoso em se daria a 
pérola á dama para o seu toucado, se ao 
homem para os seus interesses, ou se ao mar 
por sua restituição; e que na repartição do 
mais estava duvidoso; que visse S. Majestade 
Aquilina o que era mais justo na distribuição 
daquelle achado, que a elle lhe não era útil 
para cousa alguma : ouviu a águia com grande 
attenção ao gallo, e depois de fixar os olhos 
em seu deus o Sol, respondeu illustrada : 
« o velório dareis á dama, porque é de vidro 
pela matéria, assim como ella o é pela dura- 
ção, e far-lhe-ha memoria do seu ser; o sal 
dareis ao homem, que anda muito falto de 
graça, muito cheio de malicia, e de infideli- 
dade ; a pérola tomo para nós, que a quero 
enfiar era um raio de Apollo, porque a tudo o 
mais precioso têem direito os deuses ». 

Dizeis como sábia, respondeu o gallo; porém, 
ainda que de fraca memoria, me lembra que 
Cleópatra rainha do Egypto servindo-lhe de 
arrecadas duas pérolas tão formosas, que se 
tiverão por milagre do mar, e a mim parece-me 
que cahirão do toucado a Thetis, a primeira 
sacrificou a seu amor em as aras de um copo de 
vinho, que deu a Marco António, e a segunda 
pela ver órfã, a recolheu em o templo, oífere- 
cendo-a á deusa Vénus, com que aqui preferio 
o amor á divindade. Assim, foi, tornou a 
águia, mas quaes foram os frutos desse amor? 
Para António um punhal, para ella dous áspi- 
des, que a isto se aventura quem faz a Deus 
segundo do homem. Repartiu o gallo o seu 
achado conforme a sentença da águia, que 
a muitos pode deixar illustrados, e a todos 
advertidos. 



5o • Soror Maria do Ceo 



O GALLO A PORTEIRA 

Ao abrir da porta vendo a Porteira um gallo, 
que cantava em o pátio, disse : este gallo me 
acompanha em as madrugadas: senhora, res- 
pondeu o gallo, em as auroras, em as manhãs, 
e em as tardes, não das aves brutas, não das 
creaturas racionaes vos haveis de acompanhar, 
mas somente do que dirão de vós em este 
officio. Que dirão, se tiverdes a porta aberta 
sem necessidade ? Que dirão, se chegardes a 
ella sem veo ? Que dirão, se permittirdes 
entradas, não sendo muito precisas ? Que 
dirão, se deixardes chegar a ella sem muita 
causa ? 

Se a tiverdes aberta sem necessidade, dirão 
que quereis ver. Se chegardes a ella sem veo, 
dirão que quereis ser vista. Se mandardes 
entrar a criada, ou o criado podendo escusar-se, 
dirão que sois Papa, e se fordes nimia em 
evitar o preciso, dirão que sois ignorante. Se 
dispensardes ahi conversações, dirão que sois 
relaxada. Se espantardes um acaso instantâ- 
neo, e uma conversação paterna, dirão que 
sois bruta. Trazei sempre em o sentido este 
« que dirão? » e eu vos asseguro, que ainda que 
não sejais perfeita, andeis justificada, que os 
oâicios públicos tanto aproveitam a uma para 
ser honrosa, como para ser santa. Peço-vos 
muito não deixeis em esse lugar sejam vistas 
as religiosas moças : ainda que descubrais o 
pátio só, o sol tem olhos, e não é bem as veja 
o sol, aonde as podem ver os homens, e 



I — Alguns trechos em prosa 5i 



quando para uma ocasião dispensável ciiega- 
rem, seja com a nuvem sobre a luz do rosto : 
o mosteiro é ceo, onde as religiosas sam 
estrellas, as esirellas não apparecem sem o 
veo da noite, e por isso fugiram a luz do dia": 
pessoas dedicadas a Deus bastam os olhos 
para empoá-las ; aonde é impossível chegar o 
lodo, mancha o pó ; afFastai-as da porta, e 
dispensai-lhe a cerca ; ellas para vistas sam 
fruta vedada, no pomar toda a fruta lhes seja 
permittida ; passeem a sua selva estas Dianas 
de Deus, aonde só as testimunhem as flores, e 
ainda destas sejam mais familiares as açuce- 
nas. Bem, sei que tudo o que aqui tenho 
advertido, é o que vós, e vossas antecessoras 
tendes obrado como preceito das leis, e estilo 
do mosteiro, e assim estes avisos, que pare- 
cem supérfluos para o presente, deixo para o 
futuro em caso, que o mereça a froxidão em 
o descahido da perfeição. 

Se a Prelada ou por mais singela, ou por 
mais branda vos mandar em este lugar fran- 
quear alguma licença, que vos pareça supér- 
flua, não a permitais, que vós sois abadessa 
do vosso officio, e como tal estais nelle mais 
obrigada ao decoro, que á obediência, não a 
respeito que contra a obediência possa man- 
dar-vos ; a mesma Prelada vos ha de agrade- 
cer amanhã, o que a contradizeis hoje, quando 
o considerar melhor. Senhora, o vosso officio 
neste lugar é o vosso credito ; este não o 
haveis de sugeitar a outro dominio, e ouvi a 
este propósito um apologo. 

A deusa Pomona plantou um pomar de 
maceiras, ou para recrear-se nelle, quando 
baixasse á terra, ou para regalar com as 
maçãs aos deuses alguma hora, em que os 
visse enfastiados da ambrósia, que também 



52 Soror Maria do Ceo 



aos Israelitas enfastiava o maná; buscou um 
quinteiro, a quem entregou este seu paraiso, 
e para que mais prompto cuidasse das arvo- 
res, lhe deu com elle uma porção de terra, 
em a qual o homem plantou umas amorei- 
ras : estava tam curioso o vergel, tam bellos 
os pomos, que fez a deusa gosto de que o 
vissem, que não basta a satisfação própria 
sem o louvor alheio, nem me é bom aquillo, 
que é só bom para mim : chamou dos mortaes 
alguns dos mais favorecidos, e mandou-os a 
que vissem o seu pomar; chamaram á porta, 
acudiu o quinteiro, e dizendo-lhe os convida- 
dos a ordem, que levavam, para que lhes 
franqueasse a entrada, respondeu muito enfa- 
dado : — « dizei á senhora deusa que as maçãs 
sam suas, mas que as amoras sam minhas » e 
cerrando a porta não houve persuasão, que 
lha fizesse abrir. Senhora, se alguma religiosa 
vos vier com licença da abadessa sem causa 
muito justificada para falar em este lugar, 
respondei-lhe : dizei á senhora abadessa que 
a ordem é sua, mas que a porta é minha ; e 
assim a tereis guardada até da mesma, que a 
deve zelar, e ella ao depois em vez de pelejar 
a desobediência, vos ha de agradecer a resolu- 
ção ; vós, senhora, sois a guarda deste mos- 
teiro, o querubim deste paraiso, o vosso zelo 
ardente é a vossa espada de fogo, esta porta- 
ria corre por vossa conta, e por conta dos 
anjos, que como ministros de Deus fazem cus- 
todia á sua casa. Ouvi o neste caso. 

Em o mosteiro das Carmelitas descalças em 
Cidade Real, sendo porteira uma serva de Deus, 
succedeu entrar a deshora o medico, e confes- 
sor a uma enferma ; esqueceu-se a porteira de 
fechar a porta regrai, porque o repentino do 
acidente a todas tinha embaraçadas ; chegando 



I — Alguns trechos em prosa 53 

á cella da enferma cahiu a porteira em seu 
descuido, e a toda a pressa desceu a cerrar a 
porta com a chave \ ao chegar viu um anjo, 
que estendidos os braços estava atravessado 
na porta em demonstração de que fazia guarda 
áqueile virginal paraiso. 

Em outra ocasião a tempo, em que a por- 
teira não havia deitado a chave ao ferrolho da 
dita portaria, deram umas grandes pancadas 
em a porta, buscaram a ver quem chamava 
tam a deshora, e como não respondiam, 
logo se tornavam ao coro. Repetiram outras 
duas vezes os golpes, e as freiras sua dili- 
gencia, até que reparando-se a ultima vez, 
que estava o ferrolho sem chave, a deita- 
ram, e não se ouviu mais vezes o aviso. 
Esta é a custodia, que os anjos fazem á casa 
de Deus, e vós deveis aprender do seu zelo 
para guardá-la, evitando em ella toda a imper- 
feição ás religiosas; bem sabeis que a quem 
Christo deu as chaves, encommendou as ove- 
lhas ; sabeis também que isto é porta do ceo, 
ainda que não seja de margaritas. 



A PEGA A ESCRIVÃ 



Passeava uma pega o claustro a tempo, que 
a escrivã do mosteiro vendo-a, dizia para outra 
religiosa : 

— « Esta pega me furtou hontem um tos- 
tão de uns trocos, que alli tinha da commu- 
nidade, e lhe achei muita graça. Pouca graça 
tendes vós, respondeu a pega, quando a acheis 
a quem furta o que está por vossa conta; não 



54 Soror Maria do Ceo 



deveis entender que mais vos deve ir em um 
tostão da communidade, que em um anno da 
vossa tença ; a vossa obrigação não só é de 
conservar, mas de adquirir; assim adverti que 
um real, que deixeis perder, é uma nódoa, que 
podeis ganhar; as vossas contas tem para 
passar dous juizos, o de Deus, e o das creatu- 
ras, e se o primeiro é miúdo, entendei que o 
segundo não é mais grosso ; Deus ha de julgar- 
vos como juiz, as creaturas como creaturas; 
ajustai-as de sorte, que em nenhum dos juizos 
sejais arguida. 

Buscando um senhor a quem entregar a 
administração da sua fazenda, e achando-se 
um dia em certa conversação, se veiu a falar 
na melhor forma de dar contas, a cujo propó- 
sito disse um dos presentes : t as contas para 
serem bem dadas hão de ser claras como agua, 
e miúdas como as pérolas ». Aqui acudiu um 
honrado homem, que ahi se achou, e respon- 
deu : a claras como agua sim, porém mais 
miúdas, que os aljôfares ». Reparou o fidalgo, 
e observando a sentença o levou para sua 
casa, e lhe entregou a administração das suas 
rendas, parecendo lhe que de discurso tam 
miúdo não poderia sahir conta infiel, e o suc- 
cesso correspondeu á confiança. 

DifFerente se achou um dos Imperadores do 
Oriente em tempo, que ainda as luas otomanas 
não dominavam a infelice Constantinopla; 
este tal principe se entregou tanto de sua von- 
tade a um astuto monge, e tam astuto, que se 
introduzia por um dos primeiros ministros do 
Império, sem que a grossaria do habito lhe 
abatesse os fumos da soberba : tanto se lhe 
entregou o Imperador, que mandava tudo o 
que os principes concedem aos validos, e ficam 
corpo sem alma ; veio a descahir ; que estes 



I — Alguns trechos em prosa 55 



taes em chegando áquelle auge, donde não 
podem passar, logo declinam, e aqui estava a 
fortuna violenta pelo sugeito ; deram-lhe car- 
gos, pelos quaes o Imperador lhe mandou 
tomar contas, pois manejava officios de grande 
supposição ; entraram os ministros do Impera- 
dor, e ao pedir-lhe razão, respondeu : « dizei 
ao Imperador que quando entrei a servi-lo, 
todo o meu cabedal era este habito, que visto, 
só com elle me saio da sua corte, e aqui ficam 
estas casas com tudo o que adquiri nos meus 
officios: são as contas, que dou da administra- 
ção delles; e sahindo do seu impróprio palácio, 
desappareceu da corte, deixando umas contas, 
se não miúdas pelos algarismos, discretissimas 
pela occasião. Este caso vos trago mais por 
historia, que por exemplo, que bem creio não 
tereis na vossa cella as gages do vosso officio, 
antes supprireis com a agencia o que faltar 
com a possibilidade. 

Com a prelada nas acções de administrar 
vos portareis como quem serve, e não como 
quem manda \ não tomeis do império alheio 
para o dominio próprio, e como precisamente 
haveis de fazer rosto aos negócios da casa, 
vos advirto que nas grandes praticae só o 
preciso evitando o escusado ; conservai nestas 
a gravidade de quem pugna pelo bem commum 
sem a nota de quem assiste pelo desafogo par- 
ticular ; sede mui séria com os de fora, mui 
affavel com as de dentro, porque nas occa- 
siÕes, que de vós necessitarem, comprem a 
dependência mais barata com a confiança; 
isto de dizer não só o pratiqueis nos impossí- 
veis; quem se vale de outrem, e sae despedida, 
poucas vezes deixa de sahir envergonhada; não 
dupliqueis na face de vossas irmãs as rosas, 
para que não levem no coração as espinhas. 



56 Soror Maria do Ceo 



E a este preposito vos trarei uma ficção, que 
as metáforas sam traslados dos exemplos. 

Passeando a deusa Vénus as praias da 
Archipelago, lhe sahiu ao encontro uma bella 
ninfa, e prostrada a seus pés lhe disse reve- 
rente : « a vós como a deusa da formosura 
venho pedir uma perfeição, que falta a meu 
rosto; moradora nas aguas tenho a cor de 
pérola sem a graça do nácar, e assim enfiada 
na cor tibia, não luz em minhas feições o 
esmero, com que as fez a natureza •, rogo-vos 
agracieis minha formosura com a cor da rosa, 
para que fique em minhas faces escrito vosso 
beneficio ». Olhou-a Vénus, e reparando na 
grande perfeição de seu rosto, não quis augmen- 
tar-lha \ de formosa a formosa, ainda sendo 
uma deusa, tem inveja da que é melhor, por- 
que a belleza não só quer parecer melhor, 
mas não quer que outra pareça bem. Assim 
succedeu a esta no nome divina, e no ciúme 
humana, que disse á ninfa : « para emprego 
de um Tritão basta-vos o que pareceis ; e 
virando as costas desappareceu deixando a 
ninfa tam corrida, que as cores, que lhe não 
deu sua graça, lhe deu sua repulsa. ApoUo, 
que ao sahir se fez senhor de todo o successo, 
para lhe perpetuar a cor a passou brandamente 
por um de seus raios, e assim anoiteceu rosa, 
a que amanheceu pérola, despicando-a Febo 
da injuria de Vénus. Succedeu encontrar-se a 
ninfa segunda vez com a deusa, que tinha alli 
templo, e andava espreitando a adoração de 
seus Ilheos, conheceu-a, e vendo-a rosada lhe 
disse : que he isto ? e quem vos deu essa 
cor ? devi á vossa injuria, respondeu ella, o 
que não devi ao vosso favor. Enfiou Vénus 
ou de invejosa, ou de alcançada \ e assim uma 
desmaiada, outra colorida as olhou um passa- 



I — Alguns trechos em prosa 



geiro, e como a cor é a alma da formosura, 
disse seguindo seu caminho : a corada leva a 
palma. Vénus toda iras foi a pegar da ninfa 
para vingar em sua innocencia seu dezar, 
fazendo-a outra Andromeda; porém ella se 
mergulhou nas ondas, e a deusa subiu ao 
Olimpo, aonde fez queixa a Neptuno pedindo- 
Ihe a ninfa para sacrifício; porém elle já infor- 
mado por ApoUo, lhe respondeu muito carran- 
cudo : quando fordes liberal das vossas graças, 
serei honrador das vossas piras ; e ficou a 
defender a sua ninfa, e Vénus a arder na sua 
inveja. Se as ninfas catholicas, que são as 
vossas companheiras, necessitarem alguma 
cousa do que podeis, torno vos a dizer, que o 
não seja só para os impossíveis, e o sim ainda 
para as difficuldades, porque lhes não façais 
sahir ao rosto com a escusa as cores, que a 
ninfa tomou com a negação ; não as deixeis 
rosadas de corridas, para ao depois ficardes 
qual Vénus desmaiada de arguida. Havei-vos 
com todas, como Deos, que é para todos, 
advertindo que o que administraes, é tanto 
seu, como vosso •, fazei bem de justiça em o 
que for da communidade, e alargai-vos a fazer 
bem de misericórdia em o que for vosso. 



A ROLA A CELEIREIRA 



Continuavam as aves a sua missão em os 
claustros, quando a Celeireira vinha do forno, 
e queixando-se dizia : em o celeiro me comem 
o trigo as formigas, em os moinhos me moem 
mal as farinhas, eni o forno me queimara o 



58 Soror Maria do Ceo 



pão; as freiras queixam-se ; eu não sei que 
faça para remediar tanto dano; mas assim 
passaremos, porque não só em o pão vive o 
homem. Entrou em o celeiro a dita official, 
e achou uma rola comendo em o trigo : não 
bastam, disse ella, as formigas, mas também 
as rolas ? E vós, respondeu a rola, não bas- 
taes nem para as rolas, nem para as formigas; 
se tiverdes cuidado com a porta, não entrarão 
as rolas, e se o tiverdes com o celeiro, não 
entrarão as formigas. Quando as abelhas vão 
á vossa conserva, sei eu que as enxotaes ; mas 
quando as formigas vivem em o vosso celeiro, 
deixae-las estar; a formiga tem boca, a abelha 
tem arma; porém vós para guardardes o trigo, 
que é de todas, temeis a boca da formiga, e 
para resguardardes a conserva, que é vossa, 
não temeis o ferrão da abelha ; é, porque não 
sabeis que cada grão da communidade, que 
perdeis, é uma pérola, que furtais ; para o 
valor é trigo, para o vosso encargo é pérola : 
tendes obrigação de o guardardes como the- 
souro, ainda que o vejaes como pão; direis: 
e que podem agora diminuir as formigas le- 
vando grão a grão ? Não sabeis que de grãos 
se compõe um alqueire, de alqueires um 
saco, de sacos um moio, de moios um celeiro? 
Tantos grãos vos podem levar, que vos levem 
o celeiro todo. O dia, senhora, não o gastaes 
vós minuto a minuto, e por isso deixa de aca- 
bar-sfe o dia ? Quem tirar de um dobrão ceitil 
a ceitil, deixa por isso de dar fim ao dobrão ? 
Entendei, senhora, que se não esgotam as aguas 
bebendo-se sempre delias, porque são nativas; 
em o juizo das vossas obras não haveis de dar 
conta a Deos só dos peccados graves, mas 
também das venialidades, e das imperfeições ; 
em o juizo do vosso celeiro não vos hão de 



I — Alguns trechos em prosa 5g 



pedir conta só dos moios, mas também dos 
grãos: medi juizo por juizo, pois em um vos 
hão de tomar conta de dous cuidados, em que 
não é vosso, porque é de todas ; e ouvi um 
apologo que vos vem a dar exemplo. Aciíou- 
se em certa praia uma ninfa contando pérolas 
ao mesmo tempo, que em a mesma ribeira 
contava um moço de um pescador sardinhas: 
batiam as ondas em as rochas, e elle enfadado 
reprehendeu o vento, porque o perturbava em 
a sua conta; riu-se a ninfa, e disse: eu não 
me enfado contando pérolas, e tu indignas-te 
contando sardinhas ? Sim, respondeu o moço, 
porque as pérolas são vossas, e as sardinhas 
são alheias: o pescador era ião rude, que 
olhava para as sardinhas vendo a ninfa ; mas 
era tão fiel, que contava sardinhas vendo pé- 
rolas. A sua resposta vos sirva de exemplo, 
e é : do peixe, qyie não era seu, não queria 
errar a conta, nem ainda em uma sardinha: 
vigiae vós o celeiro de sorte, que lhe não per- 
caes um grão, porque são alheios. Não pára 
aqui o meu discurso; tornae a assentar-vos, 
porque vos falta muito que ouvir. 

Queixaes-vos do moleiro, porque as farinhas 
vinham ou mal moidas, ou mal medidas; se 
vem mal moidas, reprehendei-o, se vem mal 
medidas, exclui o; emendar a mão é mais 
fácil, que emendar a mão; sempre lhe fica o 
perigo nas occasiÕes; se lhe ficar a massa em 
a mão, furta, deitae-o fora ; é ladrão não vos 
sirvaes delle. Estaes dizendo que vos aconse- 
lho rigores, que vos aconselho imprudências, 
que vos aconselho tyrannias. De sorte que 
Deos pelo furto de uma maçã deitou a Adão 
do Paraiso, e vós pelo roubo das vossas fari- 
nhas não podeis deitar de vossa casa ao 
moleiro? Senhora, não tenhaes piedades mu- 



^ Soror Maria do Ceo 



Iherís, que são omissões, e não piedades : dizeis 
que vos queima o pão o forno; pois assisti em 
o forno a manhã do pão; mas vós fícaes em o 
coro rezando as vossas devoções, e o pão no 
forno perdendo-se : salve eu as minhas relí- 
quias, dizia o outro, e abraze-se Tróia; salve 
eu as minhas orações, e abraze-se o pão. Se- 
nhora, o vosso coro é o vosso officio; quando 
sois Martha, não tendes obrigação de ser 
Maria. 



o GANSO A PROVISORA 

Em a provisória se queixava a official daquelle 
officio de que lhe esperdiçavam os adubos; 
quando lhe respondeu um ganso, que alli es- 
tava ; seria para sacrifício de alguma ceia : 
nem os mandeis esperdiçar, nem prohibir, que 
tão mau é o diminuto, como o supérfluo, e 
porque melhor o advirtais, ouvi a obrigação 
do vosso officio. Haveis de dar o comer ás 
Religiosas, pobre, e asseado, bem feito, e a 
horas : pobre, porque a mesa ha de dizer com 
o habito, e quem pede estamenha para vestir, 
não ha de pedir perdiz para comer; regalos 
de valor não se compram a preço de Commu- 
nidade: asseado, porque a limpeza é a melhor 
iguaria, e esta não está prohibida na mesa da 
abstinência : bem feito, porque ainda que as 
vejais obrigadas á mortificação, estais vós mais 
obrigada á caridade ; de pouco custo como a 
pobres, mas de bom tempero como a mulhe- 
res; não estão em a Tebaida, onde um cacho 
de uvas mandado a Santo António Abbade 
correu todo o deserto, presenteado de um a 



I — Alguns trechos em prosa 6i 



outro por não haver quem se atrevesse a gas- 
tá-lo, até que veio a tornar á mão do mesmo 
Santo. Não estão em o ermo da Penhuelá 
Carmelitano, aonde um fio de azeite em as 
hervas era o maior regalo em as Páscoas. Não 
estão em as covas do nosso Montemor, aonde 
os servos de Deus, que as habitam, se agasa- 
lham em o maior rigor do inverno com uma 
fatia de pão quente ao fogo; estão, aonde 
podem gostar sem nota tudo, o que se lhe 
administrar sem demasia; fazei-o de sorte, que 
se não perca o custo do manjar, que é o mais, 
pela falta de adubos, que é o menos, e este 
reparo também é recomendação da pobreza. 
Digo-vos que chameis ao refeitório a horas, 
porque em toda a mesa é o melhor prato o 
ser a tempo, e em a das religiosas de obriga- 
ção, porqne em tudo devem guardar a boa 
ordem; em cousa nenhuma se hão de parecer 
com os do mundo; destes o relógio sempre é 
ás avessas do tempo, e assim como fazem para 
o descanso do dia noite, farão para o comer 
da ceia jantar; são os vossos antipodas; quando 
o mundano se recolhe ao seu catre, se levanta 
a religiosa da sua tarima. Se alguma reli- 
giosa se queixar do tempero em o comer, 
reprehendei ás cosinheiras o pouco cuidado, e 
á freira a pouca mortificação; áquellas com 
severidade, a esta com brandura ; bem é lem- 
brar-lhe a abstração de regalos, ainda que 
mandeis emendar o dissabor em o comer: não 
creio que em nenhuma haja golodice de menina, 
mas poderá haver em alguma melindre de 
mulher: a isto dizia um pratico que estava 
rnuito melhor com o melindre, que com a golo- 
dice, porque o melindre tocava em pouco, e a 
golodice engolia tudo. A este propósito vos tra- 
rei uma historia, que não deixa de ter sua graça. 



62 Soror Maria do Ceo 



Tinha certa matrona f que não desmerece 

f)or esta prevenção o nome) cuidado de reco- 
her frutas para o tarde, de cuja casa entregava 
a chave a um criado; era o marido muito 
regalão, e goloso, que uma cousa anda annexa 
a outra ; este tomava a chave ao criado, e sem 
que o soubesse a mulher, dava em a fruta, 
que ainda estava vedada, sem esperar lhe 
fosse permittida; de todas tirava sem exce- 
ptuar nenhuma : o criado o sentia muito, por- 
que aquella guarda era sua, mas o seu respeito 
dissimulava; perguntou-lhe um dia o amo, que 
fruta entre todas era a melhor •, estava com o 
sabor das que tinha comido; respondeu o 
criado: (era discreto) para os meninos as 
cerejas, para os moços, alludindo aos amores, 
ou ás discórdias, que uma, e outra cousa é de 
sua verdura, as maçãs, para os velhos as 
sorvas. Replicou o amo rindo-se: e para os 
golosos ? Para os golosos como vós, acudio o 
criado, são as melhores todas. Os que a si 
mesmos se prejudicam, são os golosos, vos 
diz o primeiro dia de todos. Se Eva se absti- 
vera da maçã. não perdera o reinado do Pa- 
raíso, se Esaú não apetecera as lentilhas, não 
perdera o morgado da benção, se Jonathas se 
não levara da doçura do mel, não arriscara a 
vida nas iras do pae : mortificar o appetite não 
só é conselho santo, mas conselho físico; a 
temperança é uma virtude, que não só forta- 
lece a alma, mas conserva a vida. Dir-me-heis: 
todo o comestível, que Deus creou, foi para 
o sustento do homem ; assim é ; mas accres- 
centae, que foi para o sustento, e não para a 
demasia, para a providencia, e não para a 
gula, para a conservação, e não para o appe- 
tite; creou as frutas para o refresco, e não 
para o regalo, creou os peixes, para que ou o 



I — Alguns trechos em prosa 63 



fogo OS assasse, ou a agua os cozesse, e não 
para que delles se fizessem tão opulentos pra- 
tos, que veni a ser muito maior o custo do 
adereço, que o do manjar, aonde se consomem 
as manteigas nos fritos, as espécies nos adubos, 
as farinhas nas massas, os ovos nas guarni- 
ções: dispensou as carnes já quando a natureza 
estava mais descabida : para uma pedra ferida, 
e um lenho cortado basta-se o cozinhá-la, e 
não para que a revestissem de tão diversos 
géneros, que muitas vezes em um prato se ha 
de mister estudo para conhecer-se o de que é. 
Creou o açúcar em as cannas para credito da 
natureza, e não para sustento dos homens, 
c]ue a ser assim, não estivera tantos séculos 
ignoto : creou o mel, não para a doçura do 
favo, mas para a utilidade da cera ; permitte 
que de tudo se aproveite o homem, não para 
a golodice, mas para a conservação. Também 
vos direi que creou o cacau, não vos hei de 
dizer que o creou, para que ao dia de jejum 
tome o chocolate sem necessidade, quem o 
toma por appetite, e bom fora que ficassem só 
neste os aggravos do Santo. Um grande desta 
corte praticando com certa pessoa em tempo 
de Quaresma ; vencida parte d'ella, lhe veio a 
dizer como até alli a não jejuara ; perguntada 
a causa, respondeu que levara aquellas sema- 
nas caçando, e como em este exercício se 
madruga, e se trabalha, lhe não fora possível 
o jejuar; com que o desenfado da caça lhe 
dispensou o preceito da Igreja, e não sei se 
também com o jejum o peixe, porque elle não 
caçava em o mar; dalli levou a admoestação, 
não sei se levou a emenda. 

Senhora, nada do que aqui vos tenho refe- 
rido, é em ordem a que as religiosas não 
comam, antes vos exhorto a que não só lhe 



64 Soror Maria do Ceo 



deis o comer, mas muito bem feito, e tão 
abundante quanto permittir a possibilidade do 
mosteiro, e quando esta falte, seja a vossa 
diligencia a que suppra em o seu remédio; a 
minha tenção é o desejar que se não apeguem 
as religiosas a comerinhos supérfluos, porque 
pelo regalo humano não percam a ambrósia 
divina. 

Lembrada estareis de um exemplo, que 
podendo escusar por sabido, o trago a pro- 
pósito : direis que o tendes lido muitas vezes ; 
lede-o outra, que nisso podeis ganhar muito, 
e perder pouco. Tornai a recordar o como 
um monge de S. Bernardo, religioso em o 
o habito, secular em o regalo, menino em o 
appetite, a titulo de enfermo, fazia lhe dessem 
em o refeitório manjares delicados, quando 
seus irmãos os comiam tão grosseiros, que 
uma tigella de legumes por adubar, quando 
era a sua iguana, era o seu regalo; levantados 
um dia da mesa, aonde entre tantos mortifica- 
dos fazia este só o papel do goloso, ao entra- 
rem á casa, em que davam graças, os esperou 
á porta uma estrella animada, uma flor de 
Jericó, uma mulher divina, uma Maria huma- 
nada, a qual com uma mão do ceo tirava de 
uma porçolana pura uma colher de delicia 
suave, que dava a cada um, que ia entrando; 
o nosso mimoso ou attrahido do cheiro, ou do 
natural ansiava aquelle regalo; chegou a tomar 
a sua porção com alvoroço ; a Senhora mu- 
dando o ceu sereno em rosto severo lhe disse: 
Este mimo é para os meus filhos, aquelles, 
que mortificados e abstinentes se contentam 
com as hervas sem sal, que lhes administra a 
pobreza, e não para os que, como tu, fazem 
buscar manjares delicados para satisfazer o 
appetite com a cor da enfermidade. Ficou o 



I — Alguns trechos em prosa 65 



religioso tão corrido, como pesaroso em ver 
ficava excluido d'aquella divina porção, e assim 
com muitas lagrimas aos pés da Senhora, que 
se lhe deu a conhecer, lhe protestou emenda, 
e pediu misericórdia ; a mãe d'esta, que não 
sabe negá-la, lhe concedeu logo a sua colher, 
em a qual achou tal suavidade, que compara- 
dos a ella todos os mais manjares apetecidos 
lhe faziam fastio imaginados, e assim nunca 
mais buscou outros fora os da communidade, 
sendo em esta o mais mortificado, o que havia 
sido o mais excedido. Bem nos mostra este 
caso, que para termos os regalos do ceo nos 
havemos de abster dos da terra, a cujo pro- 
pósito trarei também um apologo, que em 
sombras vem a ser o mesmo, que o exemplo 
em luzes, para que com a novidade de um 
perdoeis a antiguidade do outro. 

Querendo Júpiter que os humanos provas- 
sem dos néctares celestiaes, convidou a quatro 
dos mais favorecidos para darlhes em o 
Olimpo um almoço, que constava de um prato 
da sua ambrósia. Alvoroçados os homens 
para o manjar dos deuses, partiram de qoite 
para chegarem bem de manhã \ era o caminho 
áspero, a subida Íngreme ; com que já ao riso 
da alva, ou ao pranto da aurorja se acharam 
cansados, e sequiosos ; alentados conforme a 
providencia, que encontraram, chegaram ao 
cume do monte, aonde esperava o Tonante, 
moderando as luzes, porque melhor o vissem ; 
recebeu-os mui humano franqueando-lhes a mão 
por demonstração mais urbana ; chegou o pri- 
meiro a beijar-lha : Que he isto, disse o Deus, 
trazeis os lábios viscosos ? Senhor, respondeu 
o convidado, ao subir o monte me achei can- 
sado, e sequioso, e para alimentar-me, e vir a 
adorar-vos mais ligeiro, topando em poucas 



66 Soror Maria do Ceo 



abelhas, e pobre enxame um favo de mel, o 
gostei, e com isso pude com mais brevidade 
chegar a vossos pés, sem que este alvoroço 
me deixasse advertir em purificar minha bocca. 
Callou Júpiter, e veiu o segundo; ao pegar lhe 
da mão retirou o grão Tonante, e disse : Com 
mãos ensanguentadas vos atreveis a tocar a 
minha ? Respondeu o homem com a mesma 
pressa, que seu companheiro: encontrando 
em o caminho uma amoreira desfrutei meia 
dúzia de amoras, com que alentei meus passos 
para chegar a vosso acatamento, tingiu-se a 
mão em o viço do fruto. Disse, e relirou-se, 
sem que o terceiro ousasse a chegar, a tempo, 
que appareceu o quarto, que havia ficado 
atraz : como tardastes mais que os outros, lhe 
disse Júpiter, quando todos devieis vir voando? 
Divino Jove, respondeu elle, sou humano, e 
cansei, e achando-me sequioso, parei a mugir 
de uma cabra perdediça uns tragos de leite, 
com que me cobrei para esta subida. 

Aqui pôs Júpiter os olhos em o terceiro, que 
se conservava mais desviado por mais reve- 
rente, e lhe disse: e vós com que alentastes o 
vosso desalento? Senhor, respondeu elle, tam- 
bém o senti como homem, mas não o reparei 
como grosseiro, parecendome que quem subia 
pela ambrósia divina, não era justo gostasse 
primeiro os manjares humanos; o que fiz, foi 
abrir a bocca ao orvalho do ceo, e com elle 
me refrigerei ; com só este viatico chego á 
vossa pretença. Aqui severo Júpiter disse 
para os outros : e vós outros, que caminhando 
ao meu banquete vos embaraçastes com as 
golodices do mel, com os regalos da fruta, 
com as grossarias do leite, não estais capazes 
de gostar os néctares celestiaes, que esses só 
âc permittem a quem se abstém das delicias 



I — Alguns trechos em prosa 67 



terrenas ; com que vos dou por excluídos deste 
banquete; fique só a ser meu convidado o que 
se alentou com o borrifo do ceo sem embara- 
çar-se com as grossarias da terra ; e pegando 
da mão ao terceiro, o assentou á sua mesa, 
aonde gostou em doçuras, quanto lhe dispen- 
sou em ambrósias. 

A doutrina já a tem dado Júpiter, e o 
exemplo meditem as Religiosas, para que se 
animem a desprezar aquelles regalos, que 
buscados pela natureza podem ser estorvos 
para os que lhes dispensar a graça. Senhora, 
torno-vos a exhortar a que as trateis muito 
bem em o vosso oíficio; os regalos, se os intro- 
duz o appetite, são venenosos; porém se os 
oíferece a providencia, são salutiferos; gostem 
o que tiverem, ainda que seja bom; não se 
desvelem pelo que não tiverem por ser melhor, 
e desta sorte não ficará escrupulosa nem ainda 
a mortificação; são mulheres, tratem-se sem 
rigor ; são Religiosas, tratem-se sem melindres, 
e vós, porque nada lhes falte, suppri com a 
vossa industria o que não achar a vossa possi- 
bilidade. 



A CORUJA Á ROUPEIRA 

Em a sua officina administrando a Roupeira 
o seu officio, dizia : daqui tome cada qual o 
que lhe toca. O que toca a cada qual, lhe 
respondeu uma coruja, que a seguiu, é a sua 
roupa mui rica de asseio, e mui pobre de 
curiosidade. Desta sorte, senhora, lhe haveis 
de administrar, dai-lhe nella a limpeza, que 
cncommenda S. Bernardo, e a pobreza, que 



68 Soror Maria do Ceo 



recommenda S. Francisco, e assim fareis o 
vosso officio, e as Religiosas a sua obrigação : 
deixem para a perfeição os pontos miúdos, 
para a roupa só os costumados, fiem mais 
delgado em as suas leis, que em o seu uso; 
não lhe mandeis vestir cilicios, que não estão 
em a Thebaida, nem lhe deis hollandas, que 
não estão em o mundo : açucenas tecidas, 
jasmins fiados merece o contacto de mulheres 
puras, mas pano pobre, tear grosseiro se deve 
dar a mulheres sacrificadas. Em os hábitos 
adverti não facão galla da mortalha, que isso 
será fazer zombaria da morte: serão taes, que 
motivem devoção a quem os vir, e se edifique 
a quem os olhar: não se achem de mistura as 
reliquias da vaidade com os cortes da morti- 
ficação : a nós as corujas, porque temos os 
toucados de Freiras, nos não deu a natureza 
uma penna de cor; se a natureza não fora 
sabia, não nos deixara chans, e ouvi para 
escarmento o que nos succedeu uma vez, que 
quisemos enfeitar-nos. 

Chamou a águia a cortes a todas as aves 
para disposições, que tocavão á sua Monar- 
chia; vierão voando ao seu preceito: as coru- 
jas reparando em si, sentiram o verem-se tão 
chans, porque quiserão entrar em aquella 
publicidade mais garbosas; viam o verde no 
papagaio, o encarnado na arara, o amarello 
em o pintasirgo, o dourado em o pavão, o 
prateado em a pomba, e a este teor as mais 
aves, com quem a natureza repartiu as suas 
galantarias ; e abrumadas em esta emulação 
voavam pesadas mais, que para o alto, incli- 
nadas á terra, e por isso concebião taes dese- 
jos : avistaram em o campo uma arara morta ; 
todas concordaram em não perderem a occa- 
sião, que se lhes offerecia, e para lográ-la des- 



1 



I — Alguns trechos em prosa 69 



ceram ao campo, e despennando a ave, se 
enfeitaram com as suas pennas repartindo-as 
entre todas : não vos admireis, senhora, deste 
feito, que se os homens hoje se adornão com 
os cabellos de herejes mortos, que muito que 
houvessem aves, que se composessem com as 
pennas da arara defunta ? Muito contentes 
com esta galla de furtacôres, ou de cores 
furtadas levantamos o voo até a esfera, em 
que a nossa Rainha nos esperava ; a todas as 
outras honrou, e recebeu benigna, e pondo em 
nós os olhos, disse desdenhosa: quem são 
estas, que as não conheço, porque para coru- 
jas tem pennas de arara, e para araras tem 
forma de corujas ? Envergonhadas não soube- 
mos que responder-lhe ; ella nos despediu 
mandando abatêssemos as asas á terra, até 
que em ella despíssemos o que não era nosso. 
Este caso, senhora, que vos parecerá uma 
fabula, se o profundares, vos parecerá um 
exemplo; tirai-lhe a concha, e aproveitai-vos 
da pérola, annunciai-o a vossas irmans, e 
saibam todas que se sobre as cinzas do habito 
misturarem os dixes da galantaria, e os moldes 
da curiosidade, isto são as pennas da arara ; 
quando forem chamadas a juizo, pôde dizer- 
Ihes o melhor Juiz, que a águia : quem são 
estas, que as não conheço, porque para reli- 
giosas trazem insígnias de seculares, e para 
seculares trazem caracteres de religiosas ? 
Livre-nos Deus desta ira de Deus. 

Já ouviríeis de certo cavalheiro Hespanhol, 
o^qual, illustre e poderoso, vivia com modéstia 
tão christã, que em o seu trato não havia cousa^ 
que cheirasse a vaidade, tudo era edificação. 
Esperava-se na sua terra uma occasião de 
grande empenho, e celebridade, para a qual se 
preveniam com custosos luzimentos : mandou 



70 Soror Maria do Ceo 



O cavalheiro ao criado, que lhe trouxesse umas 
amostras para o vestido desta festa. Sahiu 
elle, e entraram parentes, e amigos do fidalgo 
a visita lo, toda a pratica foi da occasião pre- 
sente, cada um se gabava da galla, que preve- 
nia, qual do rico do bordado, qual do brilhante 
da tela, qual do precioso da abotoadura: ouvia 
o cavalheiro desgostoso, e callava timido sem 
atrever-se a reprehender lhes tanta vaidade, a 
tempo que chegou o criado cora as amostras 
de uma tela rica, e já de travesso, ou já de 
enganado, persuadido a que era tal occasião 
quereria seu amo luzir como todos, sendo 
quem era ; viu elle as amostras, e com indi- 
gnação as lançou era ura brazeiro, que tinha 
junto a si, dizendo : « estas amostras não são 
do meu pano ». Assim deixou os circunstantes 
reprehendidos, ao criado ensinado, e edificados 
a lodos, os quaes não podião dar á modéstia 
nome de avareza, pois sabiam que quanto 
apertava a mão para si em o supérfluo, a alar- 
gava com os pobres, e necessitados. 

Senhoras, que professais pobreza, adverti, se 
diz o vosso habito cora a vossa lei, não vos arris- 
queis a que vos desconheça pelo vestido quera 
vos ha de tornar conta do habito, e vos diga : 
« essa amostra não é do meu pano » \ e vos 
arroje em maior fogo, que o do brazeiro: arre- 
medar no traje á esposa do horaem a esposa 
de Deus é arriscar-se a que elle a negue; porque 
quem se disfarça, não se conhece, a sua purpura 
é a sua mortalha ; tudo o que é enfeita la, é 
desraentí-la \ não ha olhos a quem pareça bera 
uma Religiosa profana \ as de casa murmu- 
rão-na, os de fora reparão-na, os de Deus 
conderanão-na; pois logo para quem se adorna 
esta Religiosa ? Se é para enaraorar-se era o 
espelho, assim como Narciso era a fonte, elle 



I — Alguns trechos em prosa 71 



lá converteu-se em fonte, ella cá ha de con- 
verter-se em caveira. A Religiosa, que sae da 
sua esfera em o traje, aggrava ; a secular, que 
em o vestir deixa o seu permittido, edifica ; 
profana a freira nesta matéria o seu uso, mur- 
murão-na ; veste-se a princesa com modéstia, 
louvão-na; aquella fica á vista do ceo muito 
feia, esta aos olhos de Deus muito formosa, e 
tanto aqui se agrada do que se lhe dá, como 
acolá do que se lhe furta. O quanto se offende 
da freira vaidosa, em muitos casos o achareis ; 
o quanto se agrada da princesa humilde, vereis 
em este acontecido a Santa Isabel filha delRei 
de Ungria princesa de Lotharingia. 

Havia-se esta senhora desfeito das gallas e 
jóias para vestir com o seu preço aos pobres, 
e soccorrer outras necessidades : succedeu pois 
que o príncipe seu marido teve repentino aviso 
de que uns senhores Ungaros se achavam perto 
da sua corte, e queriam ver sua esposa ena 
obsequio del-Rei seu pae; affligiuse o príncipe, 
porque o tempo era mui breve, e sabia que 
sua mulher não tinha aquelles adornos, que 
pedia sua grandeza para comprir com os 
estrangeiros ; e disse-lhe estava pesaroso de 
que a vissem aquelles senhores sem a ostenta- 
ção, que em aquelle lance pedia a soberania 
dos seus estados, nem sabia que se fizesse, 
porque já não havia tempo para preveni-los. 
Respondeu-lhe a santa, não tivesse pena, por- 
que a ella se lhe dava muito pouco daquellas 
vaidades •, fora de que Deus, por cujo amor as 
havia desprezado, os tiraria bem de aquelle 
empenho. Chegaram logo os senhores, e 
havendo dado sua embaixada, chamou a sua 
esposa, e ella entrou tão formosa, tão bizarra, 
tão ricamente vestida de uma tela de cor de 
jacinto, e jóias preciosíssimas, que era uma 



7* Soror Maria do Ceo 



admiração *, mais que todos ficou admirado seu 
marido desta novidade, e quando se viu s6 
com ella, lhe perguntou, donde houvera aquel- 
las jóias, e gallas; e ella lhe disse com um 
sorriso : « senhor, o meu guarda jóias é mui 
fiel, e nunca que as haja mister, me fará falta, 
dai graças a Deus, que sempre torna com 
melhoras o que se dá por seu amor, e se des- 
preza em seu obsequio. Estas demonstrações 
faz Deus ás senhoras, que em o mundo fazem 
desprezo do mundo ; outras em contrario fará 
com as freiras, que levam o mundo á religião: 
cuidado com este ponto, que é mui miúdo. 

Em os hábitos e roupa lhes dareis muita 
asseio, e poucos perfumes; não seja que do 
fumo façam o fogo: cheirar a delicias não é 
para religiosas, que quando recreiam o olfato, 
escandalizão a razão; se a Deus cheiram mal, 
a quem esperaes que cheirem bem ? As crea- 
turas, que neste particular vos virem nimia, 
não vos hão de ter por justificada : fragrâncias 
de mulheres profanas não dizem com mulheres 
endeusadas. Foi Jacob furtar a benção a Isaac 
cm traje de Esaú ; o bom velho que já dos 
olhos se lhe tinha apagado a luz, disse: t a 
voz é de Jacob, mas o cheiro é de Esaú » ; e 
assentou por esta circunstancia em ser aquelle 
G seu primogénito, e como a tal lhe deu a 
benção, e nelle todo o seu morgado; Jacob 
sempre foi um homem de Deus, Esaú sempre 
foi um homem do mundo, e é cousa tão diffi- 
cultosa persuadir-se a que cheire ao homem 
do mundo o homem de Deus, que ainda 
conhecendo Isaac a voz de Jacob, não pôde 
crer, senão que fosse Esaú: a voz é de Jacob, 
mas a mão, e fragrância é de Esaú; esta não 
pode mentir, que creatura do ceu não cheira 
a creatura da terra. Assim as pessoas dedica- 



I — Alguns trechos em prosa j3 



das a Deus, quando cheirarem ás delicias do 
século, não as hão de ter por um Jacob justo, 
hão de tê-las por EsaU mundano. Desenganai- 
vos, senhora, que em quanto buscarem estas 
fragrâncias, não hão de pedir ao esposo as 
leve ao cheiro dos seus unguentos ; as que 
correm pelas delicias do ceo, são as que se 
não embaraçam com as da terra ; estas dirão 
uma, e outra vez : a Trahe me post te, e goza- 
ram dos aromas de Sião, porque fogem aos 
fumos de Babilónia. Neste particular fazei 
muito, senhora, por persuadir a vossas irmãs 
ao melhor, servi-as muito prompta para a cari- 
dade, muito alheia para a delicia, e quando 
instem em seus profanos cheiros, se vos pedi- 
rem fumos, dizei-lhes que os levou o vento ; se 
vos pedirem flores, dizei que estão em os alta- 
res; se vos pedirem aromas, dizei que estão 
em a índia ; se vos pedirem óleos, lembrai-lhe 
os da unção; se vos pedirem brazeiro, lembrai- 
lhe o do purgatório ; andem muito continuas 
ao coro, muito chegadas á Igreja, muito devo- 
tas ás missas, e assim cheirarão a incenso, que 
é o mais grave de todos os aromas : é cheiro 
de Deus, e até em a gentilidade foi cheiro dos 
deuses. Não só ás religiosas, mas também ás 
seculares- é bem se inculque esta fragrância. 
Assim o entendeu certo fidalgo hespanhol, o 
qual levado do seu génio usava de cheiros com 
demasia ; esta lhe murmurava uma senhora, 
dizendo que os homens haviam de cheirar a 
pólvora, sendo a dita dama mais enfeitada que 
devota ; chegou ao fidalgo a murmuração, que 
ella fazia delle, e respondeu a quem lha reve- 
lou : <í dizei á senhora D. Fulana que quando 
sua senhoria cheirar a incenso, cheirarei eu a 
pólvora ; assim a deixou advertida, e a si des- 
picado : o bem é para todos, o mau para 



74 Soror Maria do Ceo 



nenhum ; façam as religiosas uma partilha 
composta de todas as virtudes, assim como o 
thimiama dos Judeus o era de todos os aro- 
mas; esta queimada no fogo do amor, subirão 
ao ceo os seus perfumes, encherá a terra sua 
fragrância : sede puras como a açucena, sede 
cândidas como o jasmim, sede humildes como 
a viola, sede abrazadas como a rosa, sede 
angélicas como a angélica, e tendo todas estas 
virtudes, cheirareis a todas estas flores, das 
quaes fareis a Deus um ramalhete firme, que 
dure por toda a eternidade. 



II — VERSOS 



DE . A PRECIOSA . 

I 

Mote. 

Já por Clemência deixei 
Tudo mais que ella não fosse 
Quero-lhe bem, acabou-se. 

Glosa. 

Perguntais-me por meu gado? 
Ha muito que anda perdido, 
Porque eu só tenho o sentido 
Aonde pus o cuidado ; 
Anda por hi desgarrado, 
Muito ha que delle não sei, 
A piedade lhe neguei, 
Fugi da sua assistência, 
Que até a mesma Clemência 
Já por Clemência deixei. 



De minha estancia aldeana 
Me dizeis que vos informe : 
Quem tem amores não dorme, 
Eu já não vou á cabana ; 



7^ Soror Maria do Ceo 



Por Clemência soberana. 
Gado e cabana deixou-se, 
Tudo por ella trocou-se, 
Até a Pastora amada ; 
Porque entendi que era nada, 
Tudo o mais que ella não fosse. 



Já das serranas fermosas 
Não cobiço as graças bellas, 
Ando-me trás as estrellas, 
Não faço caso das rosas. 
Sabei pois, flores mimosas, 
Que meu cuidado mudou-se ; 
Para Clemência passou se; 
Murmurais minha attenção ? 
Não vos dou satisfação, 
Quero-lhe bem, acabou-se. 



II 



A sonora corrente. 
Que tua agua prepara 

Pára, 
O rio transparente. 
Que a Clemência segura 
Doce mar, agua viva, fonte pura. 



Ao ver que se desata 
Esse cristal, me rio ; 

Rio, 
Tuas correntes ata. 
Que melhor fonte encerra 
Monte azul, verde ceo, celeste terra. 



II — Versos 77 



Sua piedade imita, 
Ou lhe terás invejas, 

Vejas, 
Como já resuscita 
Seu suave despenho, 
Morta fé, murcha flor, tostado lenho. 



Seu cristal peregrino 
Por todo o mundo havemos, 

Vemos 
Em felice destino. 
Banhar sua corrente 
Clima igual, pólo frio, zona ardente. 



Esta fonte preclara, 
Que suave combate, 

Bate 
Na dureza mais rara. 
Que abrandar se despenha, 
Duro ser, forte rocha, firme penha. 



Piedosa, não estranha, 
Faz na igualdade estudo. 

Tudo 
Sua corrente banha. 
Regando seu carinho. 
Tronco vil, rosa branda, áspero espinho, 



Arvores, plantas, flores, 
Bebei seus amores; 



78 Soror Maria do Ceo 



Homens, feras, brutos, 
Gozai seus tributos ; 
Que a Clemência corre 
Por arvores, plantas. 
Por flores e feras. 
Por brutos e homens. 



III 

Ai minha Pastora, 
Divina Clemência \ 
Quem me dera ver-vos 
Guardando as ovelhas; 
Buscando a perdida 
Por montes e selvas, 
E em cada passada 
Florecendo as brenhas. 
Ai minha Pastora, 
Divina Clemência ! 



Quem me dera ver-vos 

De Belém nas relvas. 

Tremendo de frio, 

(Se quem ama, gela,) 

Pela meia noite 

De alegria inteira, 

A' vista do sol, 

Contando as estrellas. 
Ai minha Pastora, 
Divina Clemência ! 



Quem me dera ver-vos 
Entre as montanhezas, 



II — Versos 79 



O leite nas bilhas, 
E fruta nas cestas, 
O suave favo; 
E vós nesta oíFerta 
Mais doce que o mel, 
Mais branda que a cera. 
Ai minha Pastora, 
Divina Clemência ! 



Quem me dera ver-vos 
No lagar ou eira, 
Entre o pastorzinho 
Uma cousa mesma, 
Fazendo por graça, 
E também por veras, 
Das uvas amores, 
Das espigas setas. 
Ai minha pastora. 
Divina Clemência I 



Quem me dera ver-vos 
No prado, ou na serra, 
Entre tantos lobos, 
Fazendo á cordeira, 
Com a lenha ao hombro; 
Suando em tal pena 
As pérolas próprias 
Por culpas alheas. 

Ai minha Pastora 
Divina Clemência ! 



9o Soror Maria do Ceo 



IV 

Do pastor que sirvo, 
É tal o jornal, 
Que trigo lhe peço, 
Centeio me trás. 



Bem haja a Clemência, 
Que é tão liberal, 
Que se um pão lhe peço, 
A um Deus me dá. 



Amo uma pastora 
Tão desnaturai, 
Que rosas lhe peço, 
E espinhos me dá. 



Bem haja a Clemência, 
Que é tão liberal, 
Que flores lhe peço, 
E amores me dá. 



Guardo umas ovelhas, 
E é o gado tal, 
Que venho em tosquia. 
Quando vou por lã. 



Bem haja a Clemência, 
Que é tão liberal, 
Que xerga lhe peço, 
E ouro me dá. 



II — Versos 8i 



Um enxame tenho, 
E as abelhas taes, 
Que lhe peço mel, 
E trago azibar. 



Bem haja a Clemência, 
Que é tão liberal, 
Que assucar lhe peço, 
E néctar me dá. 



Cultivo uma vinha 
De tal natural, 
Que em setembro estamos, 
E em agraço está. 



Bem haja a Clemência, 
Que é tão liberal. 
Que vinho lhe peço, 
E adega me dá. 



Perguntais-me se é Clemência 
Minha pastora feliz ? 
Sim, sim. 
Porque tão depressa amei 
Tão depressa respondi. 
Sim, sim ? 
Porque o amor não tem não, 
Que quem ama, só tem sim. 



82 Soror Maria do Ceo 



Perguntais-me se publico 
Os meus empenhos aqui ? 
Sim, sim. 
Que o amor é chocalheiro, 
Tudo grita por ahi, 
Sim, sim. 
Que ter com amor segredo, 
Isso faz um entre mil. 

Perguntais-me se por ella 
Minha Serrana esqueci ? 
Sim, sim. 
Porque a Serrana é mulher, 
E ella é mais que Serafim, 
Sim, sim. 
Porque não erra quem troca 
A rosa pelo rubim. 

Se perguntais, se por Clemência 
Também me esqueço de mim. 
Sim, sim. 
Que quem do amor se lembra. 
Logo se esquece de si; 
Sim, sim. 
Se me vi, não me conheço 
Quando tão outro me vi ? 
Perguntais se meus cuidados 
Satisfaz amante aqui ? 
Sim, sim. 
Que amor com amor se paga. 
Não desmaios com jasmins; 
Sim, sim. 
Ambos na mesma moeda 
Do melhor ouro do Ofir, 

Sim, sim. 
Como dizem nos mares milhares^ 
Como dizem nas pedras rubins. 
Como dizem nas flores amores. 
Como dizem nos ceos Serafins. 



II — Versos 83 



VI 



Já fenece o dia 
Da nossa alegria ; 
Já os passarinhos 
Voam para os ninhos; 
Já a fera bruta 
Corre para a gruta. 
Ai que pouco dura 
Entre todas a flor da ventura ! 



Já o gira sol 
Chora pelo sol, 
A Clicie constante 
Pelo seu amante ; 
Já a rosa bella 
Se esconde da estrella. 

Ai que pouco dura 

Entre todas a flor da ventura ! 



Já Febo cahindo 
Vai de nós fogindo ; 
Ja Diana espera 
Que a chamem da esfera; 
Já a luz dourada 
Está desmaiada. 

Ai que pouco dura 

Entre todas a flor da ventura! 



Já a doce ida - 
Vai na despedida, 



84 Soror Maria do Cco 



Já a voz sonora 
Pousa sem demora, 
Já os eccos seus 
Só dizem a Deus. 

Ai que pouco dura 

Entre todas a flor da ventura! 



Pastores, pastores. 
Com festa, e com grita, 
Que se o dia morre, 
Também resuscita. 



Maioral illustre, 
Que nesta campina 
Desdenhando a rosa. 
Sois a maravilha. 



Vós, que passeando 
A relva florida, 
Semeais finezas, 
E colheis delicias. 



Vós, que neste verde. 
Donde sois rainha. 
Desprezais estrellas, 
Pizando boninas. 



Vós, que milagrosa, 
Fazeis neste dia. 
Dos jasmins caducos 
As pérolas finas. 



II — Versos 85 



Vós, que em tal contacto 
Fazeis peregrina, 
Dos cravos rubins, 
Dos lyrios safiras. 



E por maior gloria, 
Deixais excessiva, 
Aos penhascos alma. 
Quando ás flores vida. 



Vós, torno a dizer, 
Que na despedida, 
Chorais saudosa 
A pensão das ditas. 



Dai a vossos olhos 
A luz da alegria, 
Que allumea a selva, 
E veste a campina. 



Que eu, o Tempo, venho 
A deixar do dia. 
Saudades mortas, 
E esperanças vivas. 



Correrei ligeiro 
Do maio ás delicias. 
Do estio ás brazas, 
Do outono ás brindas. 



Do inverno ás neves ; 
E na mesma ohva, 



86 Soror Maria do Ceo 



Voz trarei voando, 
O amado dia. 



Que vos achará, 
Por clemências pias, 
Uma na fineza. 
Não outra na dita. 



Pastores, pastores, 
Com festa, e cora grita, 
Que se o dia morre. 
Também resuscita. 



vn 

S. PAULO EREMITA 
[Canto sétimo e último] 

Morto Paulo, mas vivo na postura. 
Lhe abrem dous leons a sepultura 



Com os joelhos sobre a terra estava, 
O rosto para o Ceo como elevado, 
Viva a cor, donde a luz reverberava, 
E todo de uma graça realçado : 
As mãos erguidas, como quem orava, 
Assim Antão achou seu Paulo amado. 
Para morto mui vivo, ao trance altivo, 
Mas estava já morto para vivo. 



II — Versos 87 



O Principe do ermo soberano, 
Vendo ao Santo Primas sem mais mudança, 
Tocando no caminho o desengano, 
Ainda sustentava a esperança : 
Chega-se, escuta, sae de seu engano, 
Porque o vital alento não alcança. 
Conhecendo, que Paulo em tudo forte, 
Depois de falecer, desmente a morte. 

III 

Com grave dor, e pranto magoado, 
Recebe o desengano indubitável, 
E ao Santo cadáver enlaçado, 
Fragrante o advertio como tratavel : 
Da folha o despe, com que seu cuidado 
O vestido teceu tam memorável ; 
Eu dera aqui em glorias successivas, 
Por folhas mortas, esmeraldas vivas. 



No manto de Athanasio decantado 
Envolve o corpo, por mortalha digna, 
E as fragrâncias, que puro ha exhalado, 
Lhe servirão de incenso, e de bonina : 
Na verde relva do agreste prado, 
A tarima lhe faz, donde o reclina, 
E em tanta solidão, em pena tanta. 
Lagrimas chora, quando psalmos canta. 



Já a terra esperava o seu thesouro, 
Mas falta para abri-la o instrumento, 
E ella, que na demora faz desdouro, 
Esteve por romper-se em tal intento. 



88 Soror Maria do Ceo 



Pois de quanto ao mundo dá em ouro, 
Se paga, sendo a Paulo monumento ; 
Porque com estas cinzas presumia, 
Nem o filho do sol tinha valia. 



VI 

Vendo Antão, que instrumento lhe faltava, 
Com que poder ferir a terra dura, 
Com lagrimas correntes a abrandava, 
Para abrir com o pranto a sepultura \ 
Senhor, dizia, quando ao ceo olhava, 
Remédio, preveni esta amargura, 
Ou ficará aqui no transe esquivo, 
Guardando o corpo morto o amor vivo. 



VII 

Logo vio, que desciam da montanha, 
Rompendo o ar no brado pavoroso, 
Dous brutos coroados, cuja estranha 
Vista deixou ao Santo temeroso ; 
E não buscando o campo por campanha, 
Param junto ao cadáver venturoso; 
Que aqui na fúria do leão altivo 
Comina um morto, o que não pode um vivo. 



VIU 

A dourada melena sacodindo, 
Como quem as acções desentorpece, 
Com os olhos a terra vão medindo, 
Que na sanhuda vista se estremece : 
E as afiliadas unhas esgrimindo, 
O seio opaco rompem, que se oflferece, 
Deixando a Paulo aberta a sepultura, 
Branda memoria sobre a terra dura. 



II — Versos 89 



IX 



Com acção os dous brutos, reverente, 
Do Santo aos pés se lançam sem espera, 
E depois de aftaga-los brandamente, 
Dão um bramido com que treme a esfera, 
Por sinal, não da fúria mais potente, 
Mas por lamento sim, da pena fera, 
Que na ausência de Paulo, com verdade, 
Até as feras sentem saudade. 



Aqui do ermo ao Príncipe passaram, 
Meneando a cabeça incompetida. 
Como que do trabalho em que aíFanarão, 
A paga lhe pediam merecida : 
A benção lhes lançou, com que voltaram 
Melhorados no ser, mansos na lida. 
Que aqui se vio dos brutos o Mavorte, 
Brando leão ao Eremita forte. 



Logo Antão entre lagrimas, e goso, 
O santo corpo deu á sepultura, 
A qual alli supprio no prodigioso, 
A quanto lhe faltou na architectura : 
Diria o epitáfio glorioso, 
Posto que não houvesse pedra dura. 
« Aqui jaz no silencio mais profundo, 
O primeiro Eremita sem segundo ». 



Ao despedirse do lugar deserto, 
Diria saudoso entre rigores, 
Adeus cerrado ermo, ou ceo aberto. 
Que ao mesmo Paraiso dais primores 



90 Soror Maria do Ceo 



Adeus cova, onde o sol se ha encoberto, 
Adeus fonte, adeus palmas, adeus flores, 
Mas não diz : Paulo adeus ; e isto foi arte, 
Porque com Paulo fica, inda que parte. 



XIII 

Com os olhos na ausência maguados, 
Volta Antão, e no amor se fica prezo, 
Com passos não velozes, mas cansados, 
Porque uma saudade é grande pezo; 
E depois de três sois serem passados. 
Seu domicilio ve, mas com desprezo, 
Porque lhe pareceu, e não o erra, 
Aquella cova ceo, tudo o mais terra. 



XIV 

Revelou o thesouro precioso, 
Que no campo escondido tinha achado. 
Deu ao mundo o informe portentoso, 
De Paulo celestial antes que olhado : 
E só por sua voz, com alto goso, 
Entre os santos, por santo foi contado, 
Elogio de Antão, o mais profundo. 
Pois em Paulo deu fé a todo o Mundo. 



Este foi o achado peregrino, 
Nos ermos da Thebaida descoberto, 
Donde, dos solitários o mais dino, 
Fez em cova cerrada ceo aberto : 
E nelle o grande Antão sempre benino; 
Nomeou seu primas ao deserto, 
E em alviçaras deram, com primores, 
Fruto as áreas, e os penhascos flores. 



II — Versos 91 



XVI 



Este foi, Paulo Santo, de que fallo. 
Mas pare, Musa, aqui tua harmonia, 
Porque de Paulo quando attenta callo, 
Só outro Antão por mim dizer podia : 
No poético coro, sem aballo, 
A lyra se suspenda em tal valia, 
Humilhe-se o Parnaso, calle a fonte, 
Que este ermo é mais alto que esse monte. 



xvn 



Tu, Egypto, que estás vanglorioso, 
Em tua maravilha decantada ; 
Tu, que sendo do mundo alto coloso, 
A vinte mil cidades désie estada : 
Tu, de Pomona, e Ceres tão mimoso, 
Que a teu terreno dão porção dobrada, 
Não faças destes timbres, não, memoria, 
Que em ser berço de Paulo tens mais gloria. 

xvm 

E tu gigante Nilo, cristal claro, 
Donde a Africa adulta se pentea, 
E cujas aguas passam sem reparo, 
Crocodilo voraz, branda serea : 
Inda que regue, com portento raro, 
Uma parte do mundo tua vea, 
A grandeza maior, que tens agora, 
E ser de Paulo espelho em sua aurora. 

XIX 

Tu, áspera Thebaida montuosa. 
Que duro não admitte teu terreste, 
O domestico bruto, a linda rosa, 
O leão bravo, sim, a flor agreste: 



9» Soror Maria do Ceo 



Inda que tão esquiva, e espinhosa, 
Já teu verde compete com o celeste, 
Pois se achou em teu ermo, por mais bella, 
Uma flor, que excedeu a tanta estrella. 

XX 

Thebaida, Nilo e Egypto celebrados, 
Que theatros vos vistes desta gloria, 
Em taboas de diamantes vinculados, 
Eterna gravareis sua memoria : 
E tu, que nestes cantos mal limados, 
Mereces encontrar a grave historia, 
Seu exemplo tomando raro, e certo, 
Faze em teu coração o teu deserto. 



VIII 
DOROTHEA E THEOFILO 

EM METHAFORA PASTORIL 

Canto de Thea e Filo. 

Thea. 



Adonde vás, ó Filo, sem ventura, 
Dize, por este campo descuidado ? 



Filo. 



Vou por hi a zombar de teu cuidado, 
Quando te vejo nessa prizão dura. 



II — Versos gS 



Thea. 



Oh praza a Deus te piques entre as flores, 
Porque saibas quais são os meus amores. 
Adonde vás, Pastor, sem mais sentido. 
Que o de não ser amante, nem amado ? 



Filo. 



A ser na liberdade bem ganhado. 
Só por não ser nas flores bem perdido. 

Thea. 

Oh praza a Deos que ache entre as rosas 
Flores ferinas, settas amorosas. 
Adonde vás, me dize, e sabe antes, 
Que te murmura aquella fonte pura. 

Filo. 

Vou a não ter mais fé nesta verdura, 
Que a que ensinam as rosas inconstantes. 

Thea. 

Oh praza a Deus te digam as boninas 
Os mysterios da fé por rosas trinas. 
Adonde vás, Pastor, sem lealdade. 



Gomo quem seu delicto não recea 



Filo. 



Ao som, que me faz uma cadeia, 
Vou a cantar de minha liberdade. 



Thea. 



Oh praza a Deus, pois ouço tal desprezo, 
Que nas silvas das rosas fiques prezo. 
Adonde vás sem affeição de vida, 
Quando ui;n a vida quer para o que ama ? 



9^ Soror Maria do Ceo 



Filo. 

Vou por ahi donde a sorte já me chama, 
A querer só a vida para a vida. 

Thea. 

Oh praza a Deus te encontre o lobo forte, 
Dando-te á dura vida doce morte. 
Adonde vás, se estrellas superiores 
A amar-te chamam, pelas flores bellas ? 

FUo. 

Vou só por desmentir essas estrellas, 
A pizar vingativo nessas flores. 

Thea. 

Oh praza a Deus que aches nella certo, 
Não o Aspid dormido, Amor desperto. 



CANTO SEGUNDO 

Filo amante. 

í 

Thea. I 

c 

Adonde vás, Pastor, que hontem tão' for IP 
E hoje só tua paz é tua lida ? í 



Filo. 

A morrer por amor doce homicida. 
Porque só quero a vida para a morte. 

Tltea. 

Ah do valle, Pastoras mais fermosas, 
Cercaio de maçans, trazei-lhe rosas; 



II — Versos gS 



Que arma pôde ferir entre rigores 
Coração, que tão livre se observava ? 

Filo. 

Pôs amor contra mim na sua aljava 
Três maçans, e três rosas superiores. 

Thea. 

Ah do bosque, estimae a fruta bella, 
Porque a sorte de Filo esteve nella. 
Qual o encanto foi, artes gloriosas, 

Filo, com que amor te ha demudado ? 

Filo. 

O feitiço de amor, doce bocado, 
Foi sabor de maçans, cheiro de rosas, 

Thea. 

Ah do pomar, tende cuidado nisso ; 
Porque as flores, e os frutos são feitiço. 
Que se ha feito, me dize, teu cajado, 
Com que duro ferias aos Pastores ? 

Filo. 

1 Depois que me entreguei a meus amores, 
'5ó minhas armas fiz de meu cuidado. 

Thea. 

Ah do monte, cantae a liberdade, 
^ue já Filo sem armas persuade. 
\donde vás, para que aqui se aceite, 
!^ue de caminho estás de essa maneira ? 

Filo. 

A desposar-me vou a outra ribeira, 
)onde ha rios de mel, fontes de leite. 



<)C Soror Maria do Ceo 



Thea. 

Ah da serra, chegae a velo todas, 
Que colar de corais tem para as bodas. 
Quem te mudou, que nesta esfera bella 
Hontem te vi de condição tão dura ? 

Filo. 

Tu foste, Thea, por maior ventura ; 
Sol dos pastores, e de Filo estrella. 

Thea. 

Ah da aldeã, cantae-me o vencimento, 
Vozes de mil a mil, de cento a cento. 



Oo paraiso as flores Dorothea 
Qfferece a Theofilo repentina, 
posas quando nos prados de Amalthea 
O gelo não abraza, predomina : 
Hambem maçãs lhe manda a bella Dea, 
3Ce nos frutos, e flores peregrina ; 
m a quem não magoou com suas dores, 
;> convencer chegou com suas flores. 



IX 

SOBRE AS PALAVRAS DO PADRE VIEIRA 



Tudo passa para o tempo 
Nada passa para a conta. 

Passa lhe a alva ao dia, 
Passa-Ihe também a aurora, 
Passa-lhe do sol a hora, 
E passa-lhe a tarde fria ; 



II — Versos 



Passa-lhe a noite sombria 
De tanta luz ameaça. 

Tudo passa. 

Passam as horas voando, 
Passam os dias correndo, 
Passam semanas em sendo, 
Passam os meses andando ; 
Passam os annos passando, 
Passam os segres sem tassa. 
Tudo passa. 

Passa o homem ao sopro só 
Da morte, que ar violento ; 
E como chega este vento, 
Logo desfaz este pó ; 
Se queres, pergunta a Job, 
O como este ser se passa ? 
Tudo passa. 

Passou de Dido a historia, 
Passou de Garthago o forte, 
Passou de César a sorte, 
Passou de Alexandre a gloria, 
Passou de Troya a memoria, 
De Helena a belieza e graça. 
Tudo passa. 

Passou de Raquel querida 
Tanta perfeição brilhante. 
Passou de Jacob amante 
Tanta fineza oíferecida ; 
Passou de Esther a florida 
Belieza, que ao Rei enlaça. 
Tudo passa. 

Passou de Assuero o prato, 
Que a terra, e o mar convida ; 
Passou de Xerxes a lida, 
Passou de Dário o trato, 
Passou com o tempo ingrato 
Tanta pompa por fumaça 
Tudo passa. 



97' 



g8 Soror Maria do Ceo 



Passou de Cresso o thesouro. 
Passou de Anfião o canto, 
Passou de Circe o encanto, 
Passou de Midas o ouro-, 
De si mesma a vida agouro, 
Tudo comsigo trespassa. 
Tudo passa. 

Passa o sceptro dominante, 
Passa a Mitra pretendida, 
A tiara esclarecida, 
A purpura relevante ; 
Tudo passa em um instante. 
Porque assim a morte o traça. 
Tudo passa. 

Passou a idade dourada, 
A Jerusalém por erro, 
Passou a idade de ferro, 
A Roma, que então armada. 
Passou em Tróia abrazada 
A soberba em que se enlaça. 
Tudo passa. 

Passam do abril as flores, 
Passam do estio os frutos, 
Do mais rendido os tributos, 
Do mais amante os amores; 
Na cara passam as cores, 
Que á formosura relassa. 
Tudo passa. 

Passam os bens por momentos. 
Passam os gostos voantes, 
As fortunas por instantes, 
As glorias por pensamentos \ 
Tudo passa como os ventos. 
Que é ar quanto o mundo abraça. 
Tudo passa. 

Passa o ser de maior dura, 
O homem de mais valor, 
A mulher de mais primor, 



II — Versos 99 



A flor de mais formosura ; 
A pedra ao tempo atura, 
Por mais que a agua a desfaça. 
Tudo passa. 
De fantasias escuras 
Passam venturas sonhadas, 
Passam glorias acordadas 
Como sonhadas venturas; 
Passa, já que tanto apuras, 
A fortuna, e a desgraça. 
Tudo passa. 



Nada passa para a conta. 

Em aquelle estreito passo, 
Aquelle aperto terrivel, 
Aquelle juizo horrivel, 
Aquelle fatal trespasso, 
Aquelle apertado lasso, 
Adonde a alma se caça. 
Nada passa. 

Em aquelle instante fero, 
Aquelle grande momento, 
Aquelle escondido intento, 
Aquelle trance severo •, 
Aquelle processo vero, 
Aquella clara devassa. 
Nada passa. 

Em aquelle breve ponto, 
Donde a eternidade vai, 
Aquelle aíFogado ai, 
Aquelle miúdo conto, 
Donde não há contraponto, 
Adonde não ha trapaça. 
Nada passa. 



loo Soror Maria do Ceo 



Em aquella amarga conta, 
Donde sem fazer ruido, 
O pensamento escondido 
Já declarado se conta \ 
Alli adonde se monta 
Té uma palavra escassa. 

Nada passa. 
Não passa por deradeiro 
Um pensamento em tal tento, 
E não passa um pensamento 
Porque não passa um argueiro ; 
O átomo mais ligeiro 
Naquella rede se caça, 

Nada passa. 
Não passa a culpa, presumo, 
E é de fé que se crea, 
Nem miúda como área, 
Nem desfeita como fumo ; 
Alli em breve resumo 
Tudo sae áquella praça. 

Nada passa. 
Não passa a folha, pezar 
E em tal leve entidade. 
Que se prende a vaidade 
Adonde se apalpa o ar; 
Provão não pôde passar, 
Por mais que o vento a desfaça. 

Nada passa. 
O cristal não passa, não, 
Alli que em pudicícia tal. 
Para manchar um cristal, 
Basta uma respiração; 
O mais limpo coração 
Aquella luz se repassa. 

Nada passa. 
Gota não pode passar 
De culpa, que alli se esgota ; 
Donde não passa uma gota, 



II — Versos 



Como hade passar um mar ? 
Se nesse mar se afogar 
Uma esperança, ou desgraça ! 
Nada passa. 

Não passa, nisso porfio, 
Nem o fio mais delgado. 
Que alli um fio ha bastado, 
Para se pôr por um fio ; 
Da conta o livre alvedrio 
De um nó se nelle se enlaça. 
Nada passa. 

Nem passa, nem o diamante, 
Que sem valer-lhe tal medra. 
Sobre firmezas de pedra 
Lhe examinam leis de amante : 
A pureza mais constante, 
Inda que pedra se faça. 
Nada passa. 

Não passa para que o tomem, 
Os nadas, que aqui parecem, 
Pois neste exame apparecem, 
Se em outro exame se somem ; 
Este nada passa o homem, 
Pela memoria o repassa. 
Nada passa. 

Mortal, pois passa tudo, vida avara. 
Homem, pois nada passa, nem se escuta, 
Como te prendes donde nada para ? 
Como delinqúes donde tudo accusa ? 
Como tua importância não repara, 
O que tua malicia não recusa ? 
Responde-me na duvida bem posta ; 
Mas quem não tem razão, não tem resposta 



Posto que sem resposta me lastimas, 
A perguntar-te torno, por se mudas. 
Quando á vida pegado, em que te affirmas, 



Soror Maria dó Ceo 



Quando a conta esquecido, no que cuidas ; 
Que tens vida immortai, aqui confirmas; 
Ou que alma mortal tens em o que cuidas 
O homem, torna logo dessa calma, 
Que vida mortal tens, e immortai alma. 



Como aqui te pergunta meu gemido, 
Porque )á só te fallo por lamento, 
Como quando da vida tens sentido, 
Não tens ( dize ) da alma sentimento ? 
Doete (dize) um suspiro mal perdido, 
E não te doe um superior alento ; 
O doe te de tua alma em melhor medra, 
Alma a fizeram, não a faças pedra ! 



Desculpar-te ousarás no trance amargo 
Dirás : eu não cuidei na ardente ira ; 
Não mortal, porque alli não ha descargo, 
Homem não, porque alli não ha mentira: 
No lance sem parelha, grave cargo, 
Nem a ti tens por ti, tudo te atira : 
Que poderá valer no castigo, 
Se a ti próprio te tens por inimigo ; 



Na hora que parou a parca horrível, 
E o temor da conta o susto forte, 
Vê quam cruel será, e quam terrível, 
O que passa na morte, mais que a morte 
Qual estarás do golpe no possível ! 
Qual ficarás na duvida da sorte ! 
Dize (ó mortal) como humano gemes, 
Se ao Juízo não temes, a que temes? 

Se cuidas que está longe a despedida 
Deste alento vital, te enganas ; antes 



II — Versos io3 



De instantes se compõi a tua vida, 

Quem de instantes se faz, é por instantes : 

Desses mesmos minutos, que é tecida ; 

A minutos se gasta, sam voantes ; 

Olha, que a conta é larga, a vida escassa, 

Tudo passa mortal, e nada passa. 



DOS « ENGANOS DO BOSQUE » 



DESMAYOS 

Dulce desmayo de amor, 

Si aprietas un poço mas, 
Podràs matar. 
Podràs, podràs. 
Podràs, suave delíquio. 
Toda la vida llevar, 
Porque morir es lo menos, 
Adonde amar es lo más. 
Podràs, podràs. 
Podràs, dulcissimo incêndio. 
Toda el alma arrebatar, 
Que ardor, que ai alma no Uega, 
Si es mortal, no es immortal. 
Podràs, podràs. 
SufFocar todo el aliento, 

Podràs, dulcissimo afan, 
Que reservar un suspiro 
Es hazer cargo de un ay. 
Podràs, amorosa fuerça, 
Podràs, amorosa fuerça. 

Todo el acuerdo quitar. 
Que hasta la memoria en ti 
Se convierte en voluntad. 
Podràs, podràs. 
Podràs, querida violência, 
Todo el coraçon passar, 
Que adonde un alma se hiere, 
De un coraçon que se harà ? 
Podràs, podràs. 



II — Versos io5 



Podràs, dulce parassismo, 

Todo el amor transformar, 
Porque adonde esta el amor, 
Nada, sino amor esta. 
Podràs, podràs. 
Podràs herir, podràs vencer, podràs matar, 
Si eres amor, podràs, podràs. 
Ay que me muero de amores, 

Flores, 
Ay ânsias amorosas. 

Rosas, 
Ay amantes tributos, 

Frutos, 
Que desmayo de amores, 
Dadme mançanas, traedme rosas 
Cogedme flores, 
Dulcíssimo desaliento, 

Ardor deste pecho herido, 
Como llevas el sentido 
Si dexas el sentimiento ? 
Ay que sin vida lamento ! 
Serranas, 
Dadme mançanas. 

Pastores, 
Cogedme flores. 
Dime pues, blando homicida, 
Responde, amorosa calma, 
Si hieres solo en el alma. 
Como arriesgas el la vida ? 
Ay que muero de la herida ! 
Serranas, 
Dadme mançanas. 

Pastores, 
Cogedme flores. 
Si amor, ò dulce tormento. 
Es aliento superior, 
Quando dexas el amor, 
Como llevas el aliento ? 



io6 Soror Maria do Ceo 



Ya siento amor, ya no siento. 
Serranas, 
Dadme mançanas, 

Pastores, 
Cogedme flores. 
Dime pues, dolor esquivo, 

Porque tu respuesta espero, 
Si eres vida, como muero, 
Si eres muerte, como vivo ? 
Ay que muero, y no apercibo ! 
Serranas, 
Dadme mançanas, 

Pastores, 
Cogedme flores. 
En vós los Zefyros 

Traygan instantâneos 
Con rosas coloridas 
Jasmines diáfanos. 
Tened, que desmayo, 
De mi Amado simbolos 
Rubicundo, y cândido. 
Corra en passo liquido 

A tus pulsos languidos 
De myrrha odorífera 
Unguento aromático. 
Tened, que desmayo, 
Pues respira âmbares 
El que vierte bálsamos. 
Los claveles, Principes 
Deste verde âmbito, 
Curen salutiferos 
Tus deliquios pálidos. 
Tened, que desmayo, 
Pues veo en las purpuras 
A sus golpes trágicos. 
A tu fas puríssima. 

De la luz escândalo, 
Rocien aljôfares 



II — Versos 107 



Por remédio valido. 
Tened, que desmayo, 
Que en sus sienes únicas 
Hay tan finos átomos. 
Filomenas musicas 

Del nido de un álamo 
Respondan a tus lagrymas 
Gon sus dulces cânticos. 
Tened, que desmayo, 
Que a mis quexas intimas 
Son alivios fátuos. 
Mosquetas, y angélicas 
Sin mirar obstáculos, 
Y otras plantas floridas 
Te previenen thalamo. 
Tened, que desmayo, 
Pues por esse vinculo 
Gimo en este paramo. 
Rosas, mançanas, flores, 
Si sois amores, 
Tened, tened. 
Que si desmayo de amores, 
Màs amores para que ? 
Para que ? 
Myrrhas, nardos, olores, 
Si sois amores, 
Tened, tened, 
Que, si adolesco de amores, 
Màs amores para que ? 
Para que ? 
Gracias, luzes, primores, 
Si soes amores, 
Tened, tened; 
Si estoy hcrida de amores, 
Màs amores para que ? 
Para que ? 
Gampos, vales, pastores, 
Si dais amores. 



io8 Soror Maria do Ceo 



Tened, tened. 
Si estoy moriendo de amores, 
Màs amores para que ? 
Para que ? 



II 

GEMIDOS 

Ternissimo suspiro, 

Rompe por las prisiones dei silencio, 

Y si aliento te falta, 

En esses ayres beberás alientos. 
Busca mi Amado ausente, 

Y ai llegar a su assiento, 
Si te desdena el ayre, 

Dile, suspiro, que te busque el fuego. 
A su pecho te arroja, 

Y buelve a verme luego. 
Porque, si en mi no estoy, 

Quiero saber que estoy dentro en su pecho. 
Dile, suspiro mio, 

Si te sale ai encuentro. 

Porque esconde las luzes, 

Quando dexa (ay rigor!) a los incêndios? 
Dile que peno, y lloro, 

Mas que tanto le quiero, 

Que entre extremos, y vida 

A la vida darè por los extremos. 
Dile que amor me mata, 

Mas tan fina ai intento. 

Que quando muero, y amo, 

Amo, suspiro mio, en lo que muero. 
Dile, porque es verdad 

Que en tan seguros riesgos 

Por lo que peno solo 

Diera, suspiro mio, lo que peno. 



II — Versos 109 



Entre aífecto, y dolor 

Di que me abrazo, y quemo, 

Y matarme el dolor 

Es desayre, suspiro, dei affecto. 
Di que tanto le amo, 

Que es mi ardor tan intenso, 

Que, si huviera amor mas. 

Me muriera ai pezar de querer menos. 
Dile, suspiro amante, 

En mi dolor severo 

Que, si a su centro huye, 

Pare en mi coraçon, que es su centro. 
Dile que tierna llamo, 

Y me responde el viento, 
Pues buscando sus vozes, 
Encuentro (ay infelice!) con mis eccos. 

Dile que amante clamo, 

Si en este fino empeno - 

No alcanço una palavra 

Quando, ay amor, suspiro por um verbo. 
Dile que a sus aromas 

Arrojo mis alientos, 

Y ai buscar las fragrâncias 
Bebo los ayres, los olores pierdo. 

Dile, aunque cerca este, 

Que lexos le contemplo, 

Si un àiomo que a parte, 

Aunque tan cerca este, se esta tan lexos. 
Dile que quando fina 

En mi llanto me anego, 

Le busco en estes mares 

Quando sé que se esconde en esses cielos. 
Di que la pena dura 

Se parte a mi lamento, 

Si las penas se quiebran, 

A que aguarda, suspiro, di, su pecho ? 
Pêro suspiro para, 

Recoge tus excessos, 



lio Soror Maria do Ceo 



Que el aliento no llega 

A dó puede llegar el sentimiento. 

Ay de mi, ay. 

Que sin aliento me veo 

Suspirar por suspirar! 
Em tu ausência, Amado mio, 
Dura guerra en blanda paz, 
Muero en soledad, y amor, 
Si hay con amor soledad. 

Ay de mi, ay. 

Que te busco en el affecto, 
Y me quedo en el aían ! 
Los suspiros trás el alma 

Te buscan, mas viendo estan, 
Quando un alma no te obliga, 
Como hade obligar-te un ai ? 

Ai de mi, ai. 

Que el suspiro puede menos, 

Y el alma no puede màs ! 
Escucha, que de amor muero 

Quando otra muerte me dàs, 
Si hede morir de tu ausência, 
Muera de mi enfernriedad. 

Ai de mi, ai, 

Muero de amor, si te quedas, 

Y de dolor, si te vás ! 
Buelve, buelve, porque acabo. 

De tus piedades que harás, 

Si es muerte vivir sin ti, 

Morir sin ti que será ? 
Ai de mi, ai, 

Que flechar un pecho herido 
Es crueldade sobre crueldad ! 
Ai de mi, ai. 
Que sin aliento me veo 
Suspirar por suspirar 1 
Immortal hermosura. 

Que solo tu podrás, 



II — Versos 



Siendo Libio, clavel, jasmin, rosa, 
Ser immortal. 

Adonde estas, 

Que te suspiro, y no te puedo hallar ? 
Deidad, y hombre tambien, 
Que solo en ti veran, 

Siendo hombre, siendo amante, siendo herido, 
El ser deidad. 
Adonde estas, 

Que te suspiro, y no te puedo hallar? 
Libertad de mi Alma, 

Que solo a ti tu tendràs, 

Siendo amor, siendo affecto, siendo laço. 

Ser libertad. 

Adonde estas, 

Que te suspiro, y no te puedo hallar? 

Y el aliento, que busca tus gradas, 

Fenece yà. 



III 

SIGNIFICAÇÕES DAS FLORES MORALIZADAS 
JASMIM PERIGO 

O jasmim é perigo, aqui se veja. 
Mas que flor haverá, que o não seja ? 
E bello na candura, 
E tem muito perigo a formosura ; 
E flor mui delicada. 
Circunstancia, que a faz mais arriscada, 
Prezumido de estrella o notaram, 
E também tem perigo a presunção. 
O' tu Jasmim com alma. 
Que a vida passas nesta tibia calma, 
Tem cuidado comtigo. 
Porque tudo na vida he hum perigo. 



Soror Maria do Ceo 



IV 
NARCIZO GENTILEZA 

Tem o narcizo tanta gentileza. 

Que na fonte o rendeo sua belleza, 

E hoje, porque o conte. 

Ha narcizo do espelho, e não da fonte, 

Homem, que sem conselho, 

Gomo dama te alindas ao espelho, 

Olha bem que só toca neste espaço 

O crystal á mulher, a ti o aço, 

Abraça o que te he próprio, 

Que ser homem, e flor está impróprio, 

Se és bello procede de tal arte, 

Que quem te vê Narcizo, te olhe Marte. 



V 
MADRE SILVA DESDÉM DE FREIRA 

Desdéns de Freiras ásperos arminhos. 

Para o ceo flores são, se ao mundo espinhos, 

Quando mais desdenhosas. 

Cercadas de esquivanças ficão rosas : 

Catholicas Dianas, flores vivas, 

São de Deus os amores. 

Cuidado^ não olheis para estas flores, 

Temei o forte lume, 

Que é ciúme de Deos sobre ciúme, 

Para os quaes sem desmaio, 

Se um homem tem punhal, um Deos tem raio. 



II — Versos ii3 



VI 

ANGÉLICA SAUDADE 



Saudade na Angélica se encerra, 

Saudade do ceo, e não da terra, 

Que seu nome negara, 

Se Angélica da terra se lembrara ; 

Em tudo lembra ao ceo sua doçura, 

Em nome, em cor, fragancia, formosura, 

O' suave memoria, 

Saudade da gloria, 

Adonde enternecida, 

A vida morre por sahir da vida, 

Mas trocar-se podia com verdade, 

Só pelo ceo do ceo a saudade. 



VII 

SIGNIFICAÇÕES DAS FRUTAS MORALIZADAS 
EM ESTILO SINGELO 

GINJAS SAÚDE 

He a Ginja saúde, 

Porque para os enfermos tem virtude; 

He gorda, e corada, 

Por isso na saúde figurada, 

He a doente, e são ragalo pleno, 

Manná das frutas, mimo de Galeno, 

Para curas lhe buscão os caroços. 

Porque dos bons se estimão até os ossos, 

E destes na virtude que produz, 

Se adora a cinza, quando acaba a luz. 

Que o virtuoso para maior gloria, 

Jaz no sepulcro, e vive na memoria. 



114 Soror Maria do Ceo 



VIII 
PÊSSEGO GUERRA 

E o pêssego guerra sem engano, 

Pois forma tem de coração humano. 

Os persas nos escudos mais prezados, 

Os davam por diviza aos mil soldados. 

Seu caroço diz lidas, 

Que nasce todo cheio de feridas, 

O que sangue derrama é mais illustre. 

Que é soldado sem sangue, aço sem lustre, 

Tu coração humano, que assim cresces, 

E na forma ao pêssego pareces, 

Sabe que ainda triumphante em outra gloria, 

Só vencendo-te a ti lerás vitoria. 



IX 
LIMA NOBREZA 

A lima diz nobreza, e é sabido. 

Que a muitos nobres deu o appellido; 

Entre as frutas de espinho a mais prezada, 

Que sempre a fidalguia é estimada. 

Seu gosto a agro, e doce reduziu, 

E fidalgo sem agros qutm o viu ? 

Nenhum delia se queixa por sadia, 

Esta é a verdadeira fidalguia. 

Fazer a todos bem, com gosto igual. 

Porque harto villão é o que faz mal, 

E o grande o superior. 

Quando aôaga o pequeno, está maior. 



11 — Versos 1 1 5 



X 

AVELLÃS LEVIANDADE 

Leviandade Avellãs, 
Não direi delias podres delias sans, 
Sua arvore ligeira como o vento, 
Toda vem ao primeiro movimento, 
Muitas não tem miolo como a cana, 
Que nunca tem miolo a que é leviana. 
Tem gosto, e não tem peso. 
Que este é da loucura o contrapeso, 
Do sizo faça a dama a sua palma. 
Ou ficará por Avelã cora alma, 
De bom cheiro de fama esclarecida, 
Para que assim pareça flor com vida. 



XI 
CAMARINHAS HUMILDADE 

As camarinhas são, pelo retrato, 

As pérolas do mato, 

Mas com tal humildade. 

Que nas do mar não buscam igualdade, 

Antes logo em sahindo das mantilhas. 

Dizem humildes ser das urzes filhas, 

Poucas vezes se offerece. 

Confessar o que é quem mais parece, 

Que em tempo semelhante, 

O que nem é crystal, diz que é diamante, 

Só o humilde, só. 

Ainda que seja ouro, se diz pó. 



ii6 Soror Maria do Ceo 



XII 

SIGNIFICAÇÕES DAS ERVAS AROMÁTICAS 
MORALIZADAS 

MANGERONA PRAZER 

A mangerona com fragancias bellas, 

Convida o ar a perfumar-se nellas, 

Dá prazer o seu trato. 

Que manda ao coração pelo olfato, 

Por isso o significa, 

Mas quem prazer no mundo solicita, 

Hade acha-lo enganoso, 

Que acaba pranto, se começa gozo, 

E' flor, que se desfolha, 

E flor, que não dá fruto, senão folha, 

O' prazeres do ceo, puras verdades. 

Sólidos bens, queridas saudades. 



XIII 
ALECRIM CIÚME 

Dizem do alecrim gregos autores, 

Que foi um jovem, que morreu de amores, 

Foi esta mutação maravilhosa, 

Um raio ardente de paixão ciosa ; 

Amor, que assim encanta, 

Matou o homem, e deu vida á planta, 

E activo, e fogoso. 

Que são condições próprias de um cioso, 

Brota em flores azuis os seus queixumes, 

A esse foram ceos, e não ciúmes, 

Trocando o coração, que tal encerra, 

Pelo zelo do ceo, zelos da terra. 



DAS 
« OBRAS VARIAS E ADMIRÁVEIS ^ 



I 

[Esta dama, que plantou a ginjeira, plantou também 
um damasqueiro, que deu um único damasco, e 
di^endo-lhe que já estava maduro, chamou uma me- 
nina, a quem creava, Jilha de um Marque^, e lhe 
disse fosse com ella ao jardim, mas que se não adian- 
tasse ; a menina por mais ligeira, ou curiosa, chegou 
primeiro, e fingindo que no damasco estava uma 
lagarta, ou formiga, assim que lhe tocou lhe cahiu de 
Tnaduro na mão, e logo o metíeu na boca, de que a 
dama ficou tão raivosa, que lhe /ef a seguinte sátira. 

Angélica, que no primor, 
De um jardim, que vos eleva, 
Entrastes a ser a Eva, 
Quando ieis a ser flor. 
Fruta vedada em rigor, 
Apanhastes ardilosa. 
Golosa. 

O damasco vos fiei. 
Que de vós me não temi, 
Logo alli olhei, e vi, 
E já não vi quando olhei. 
Rapariga que eu criei, 
Me sahiu tão aleivosa, 
Golosa. 

Parecia um pomo de ouro. 
Na arvore alli crescida, 
E fostes tão atrevida, 
Que cortastes tal thesouro. 
E sem temer o desdouro, 
Logo o tragastes teimosa, 
Golosa. 



i 



Soror Maria do Ceo 



Cuidei, mas foram tolices, 
Quando vos vi dentes tais, 
Que eram para cordeaes, 
E não para ladroices. 
Vós voaes ás golodices, 
Como á luz a maripoza, 
Golosa. 

Alli com malícia arta, 
Culpastes como inimiga, 
A lagarta, e a formiga, 
Sendo a formiga, e lagarta. 
Assim a culpa descarta, 
Seu crime quando manhosa, 
Golosa. 

Nesta rapina que fez, 
A vossa ligeira mão. 
Pareceis filha de Adão, 
Mas não filha de Marquez. 
Não vos succeda outra vez, 
Que estou louca de raivosa, 
Golosa. 

Ao damasco que estranho. 
Parecia rico, ameno, 
Já um pêssego pequeno, 
Já um topázio tamanho, 
Fostes vós de um arrepanho, 
Arrancá-lo criminosa, 
Golosa. 

Damasco, que com verdade. 
Em tanta perfeição junta. 
Da minha ginja defunta. 
Consolava a saudade. 
Fostes com tanta crueldade. 
Abaná-lo cautelosa, 
Golosa. 

Sois um leão comedor. 
Uma serpe tragadora. 
Uma traça roedora. 



II — Versos • 119 



Um bicho devorador, 
Um apanha sem primor, 
Uma ladrona famosa, 

Golosa. 
Tão prompta a rapariga vai, 
Que quando a estorvá-la fui, 
Querendo dizer ai ui, 
Só cheguei a dizer ai. 
Arrancai, comei, cortai, 
Que eu vos farei boa glosa, 

Golosa. 



11 

MORTAL DOENÇA 

OITAVAS 

Na febre do amor próprio estou ardendo, 
No frio da tibieza tiritando, 
No fastio ao bem desfalecendo, 
Na sezão do meu mal deliriando, 
Na fraqueza do ser, vou falecendo. 
Na inchação da soberba arrebentando, 
Já morro, já feneço, já termino, 
Vão-me chamar o Medico Divino. 



Na dureza do peito atormentada, 
Na sede dos alivios consumida. 
No sono da preguiça amadornada. 
No desmaio á razão amortecida. 
Nos temores da morte trespassada, 
No soluço do pranto esmorecida. 
Já morro, já feneço, já termino, 
Vão-me chamar o Medico Divino. 



J20 Soror Maria do Ceo 



Na dor de verme assim, vou desfazendo, 
Nos sintomas do mal descorsoando, 
Na sezão de meu dano estou tremendo, 
No risco da doença imaginando, 
No fervor de quererme enardecendo, 
Na tristeza de ver-me soflocando, 
Já morro, já feneço, já termino, 
Vãome chamar o Medico Divino. 



Vou ao pasmo do mal emudecendo, 
A' sombra da vontade vou cegando, 
Aos gritos do delictb emmouquecendo, 
No tempo sobre tempo caducando. 
Nos erros do caminho entorpecendo, 
Na maligna da culpa agonizando, 
Já morro, já feneço, já termino, 
Vão-me chamar o Medico Divino. 



Soror Madalena da Gloria 



DOS « BRADOS DO DESENGANO » 

I 

Mote. 

Tenho amor, sem ter amores. 

Glosa. 

Filis, pois me perguntais 
Se tenho amores, direi, 
Que de vós me namorei 
Por ter um amor não mais : 
Mas se ingrata duvidais 
Da minha fé os primores 
Apurai vossos rigores. 
Que o meu coração amante, 
Vos responderá constante, 
Tenho amor, sem ter amores. 



II 
Mote. 
Tenho amor, sem ter amores. 
Glosa. 

Este mal, que não tem cura, 
Este bem que me arrebata, 
Este rigor, que me mata, 



124 Soror Madalena da Gloria 



Esta entendida loucura 

E' mal, e é bem, que me apura; 

Se equivocando os rigores 

Da fortuna aos desfavores, 

E' remédio em caso tal 

Dar por resposta ao meu mal : 

Tenho amor, sem ter amores. 



E' fogo, é incêndio, é raio 
Este, que em penosa calma, 
Sendo de meu peito alma, 
De minha vida é desmaio : 
E pois em mortal ensaio 
Da dor padeço os rigores, 
Pergunta em tristes clamores 
A causa minha afflição, 
E respondeu o coração : 
Tenho amor, sem ter amores. 



III 
Mote. 

Como dá vida o que mata. 
Gomo o que consome, alenta. 

Glosa. 

Já que morro, ingrata sorte, 
As mãos da tua porfia, 
Deixa-me inquirir um dia 
A causa da minha morte : 
Se amor com impulso forte 
Me rendeu, como me aparta 



Poesias 125 



Do bem, que na alma retrata 
Minha doce saudade, 
Que em lagrimas persuade, 
Como dá vida o que mata. 



Nesta afflição importuna, 
Em que meu coração passa, 
Tudo é rigor, que trespassa, 
Nada golpe, que desuna : 
Que infausta a minha fortuna 
Um bem, que me representa, 
Cruel da vista me ausenta, 
E não sabe a minha dôr 
Definir em tal rigor 
Como o que consome, alenta. 



IV 

Mote. 

Como dá vida o que mata. 
Como o que consome, alenta. 

Glosa. 

Bella Filis, eu não sei 
Entender vosso rigor. 
Pois castigais meu amor, 
Porque observa a sua lei : 
Se amante vos entreguei 
Toda uma alma, como ingrata 
Vossa fereza me trata, 
Onde a esperança defunta 
A si própria se pergunta, 
Como dá vida o que mata ? 



120 Soror Madalena da Gloria 



Se de meu fino cuidado 
Vosso desdém se oftendeu. 
Como posso emendar eu 
Influencias do meu fado ? 
Não queirais, que desgraçado 
Morra aftecto, que amedrenta 
No mesmo, que representa 
Ira do vosso rigor, 
Que chega a ignorar amor, 
Como o que consome, alenta. 



V 

OITAVAS 

Esse sono, em que cego vás passando, 
Essa vida mortal, em que confias, 
Já nas asas do tempo vai voando, 
Porque da vida instantes são os dias : 
Olha que tu com Deos vás porfiando, 
E não valem com Deus tuas porfias. 
Que a vida é vidro leve, a pedra forte ; 
E não terás escudo contra a morte. 



Essa galla do prado magestosa. 
Que hoje mimo de Flora te parece, 
Perdida a louçania de formosa, 
Murcha na tarde lastimas merece : 
Nasce incêndio de grã, purpúrea rosa. 
Desengano das flores anoitece ; 
Aprenda pois na rosa a formosura 
A temer Já no berço a sepultura. 

Esse monte de fogo, que nascendo 
Em campo de safiras luz ardente, 



Poesias 127 



Em chegando ao zenit, ja vai descendo, 
Quando o viste subir do seu oriente : 
Nasceu luz, cresceu sol, porem morrendo, 
Nem luz, nem sol se mostra no occidente, 
Pois se de vida o sol não tem dous dias, 
Mortal, como em instantes te confias ? 



Já que o tempo da vida vai correndo, 
A flor da formosura descahindo, 
Do sol o resplendor desfalecendo, 
E a luz do desengano vem ferindo : 
Quando tudo da vida vai morrendo, 
E tudo emfim a morte desunindo ; 
Oh considera em tão penosa sorte, 
Que a vida é feno, sendo raio a morte ! 



Ai de ti, se a dar contas vás chamado, 
E a conta não tiveres certa, e justa, 
Se tão largo thesouro tens cobrado. 
Como já o temor te não assusta ! 
Olha que então terás juiz irado, 
E que não pôde dar sentença injusta ; 
Em conta tão estreita, morte certa, 
Quem a brados do susto não desperta ! 



VI 
OITAVAS 

Esta ardente prizão, que sepultada 
No concavo da terra mais profundo. 
Arde incêndio voraz, Tróia abrasada, 
Inextinguível raio furibundo: 



128 Soror Madalena da Gloria 



Foi a eterno sepulcro destinada 

Pelo summo poder do Autor do mundo 

Alli arde o deiicto viva braza, 

Que sem mudar sustancia, sempre abraza, 

Alli no horror do abysmo submergidos, 
Porque impossível seja o desafogo, 
Padecem dano todos os sentidos 
Na terrível união do bravo fogo : 
Sendo incêndios o peito, a voz gemidos, 
E a esperança nunca, a pena logo, 
Conjurados ar, terra, fogo e agua 
A fazer dura a pena, ardente a fragoa. 

Vibrando raios de cerúlea chama 
Em bruta forma o dragão terrível, 
A vista assusta, em horrores brama, 
Hidra infernal, que com fúria invencível 
Guerras publica, em vinganças clama ; 
E em densas nuvens de vapor horrível, 
Monstro cruel, .medonho, furibundo 
O ar infesta, ameaça o mundo. 



VII 
OITAVAS 

Cristal sereno deste manso rio, 
Selvas frondosas, verdes arvoredos, 
Tristes ciprestes, alemo sombrio, 
Montanhas duras^ desiguais penedos. 
De quem meu mal entre soluços fio, 
E secretários sois de meus segredos, 
Partida a vida ao pezo dos pezares. 
Vereis meu peito dôr, meus olhos mares. 



Poesias 119 



Se O tiranno rigor de meu tormento 
A dureza enternece destas penhas, 
Como, ó sórte cruel, meu sentimento 
Não vence, que a escutá-lo te detenhas ? 
Quando aqui de meus ais ferido o vento, 
Dôr publicando vai por estas brenhas, 
Durando meu pezar tão sensitivo. 
Que a dôr só vive em mim, que eu já não vivo. 

Mas onde vou, quem busco, a quem me queixo. 
Se o bem, por quem suspiro, é quem me mata? 
Só por conta da dôr minha dôr deixo, 
Que este bem só ficou da sórte ingrata. 
No duro tronco deste triste freixo 
Melhor meu sentimento se retrata, 
E, em mudo pranto explico a dôr presente, 
Que quem falia, desluz tudo o que sente. 



Sórte cruel, estrella sempre esquiva, 
Tiranno sentimento, amarga pena, 
Esperança defunta em morte viva, 
Dôr, a que o triste fado me condemna : 
Se do bem, que esperava, assim me priva 
O mal, que contra mim a sórte ordena, 
Oh morte, aonde estás ? Tu me soccorre, 
Que um infeliz descansa quando morre, 



VIII 
CANÇÃO 

No amargo labirinto, 
Em que infelice meus pezarès sinto, 
Donde minha esperança fenecida 
A vida tern perdida 



i3o Soror Madalena da Gloria 



Nos alterados golfos da memoria, 
Sendo sobrada a pena, escassa a gloria 
Aqui meu coração na dôr absorto, 
Fogindo o risco, desencontra o porto. 



Estrella sem firmeza 
Promctteu, e faltou por natureza ; 
Que a inconstante roda da ventura 
Quando mais favorável, menos dura : 
Seu favor amanhece. 
Mas nunca sem mudanças anoutece ; 
Roda emfim, que não pára, 
E em desandar a sorte não repara. 



Essa, que entre os mais astros é mais bella, 
Ainda que foi espuma antes de estrella, 
De bella os privilégios 
Não chegam a conservar os foros régios, 
Se a finezas constantes 
O credito negou de mais amantes ; 
Influencia custosa. 
Que fez a dita incerta, a dôr forçosa. 



Mudou se o sol brilhante em sombra fria, 
Morreu minha alegria ; 
Meu alivio fenece, 
O sofrimento a golpes desfalece, 
E a vida entre pezares dividida. 
Se desconhece vida. 
No pranto, nos suspiros, no lamento, 
Em que só tem firmeza o sofrimento. 



Que dita ha tão segura. 
Que em um dia não mude de figura ? 



Poesias >3i 



Se o favor, que hontem foi minha vangloria ; 

Já hoje é desengano da memoria ; 

Porque nas inconstancias do destino, 

O que foi esperança é desatino^ 

E uma vez a esperança já perdida, 

Que importa, que também se perca a vida ? 



Daquella amada idêa, 
Que de meu peito foi forte cadêa, 
O duro golpe já da esquiva sorte 
O doce laço corte, 
E acabe o desengano 
A vida, que alentava o mesmo engano ; 
Oh desgraça fatal, a que me cerca, 
Ser beneficio aqui, que a vida perca ! 



IX 
OITAVAS 

Que é isto, ingrata sorte, estrella impia ? 
Como meus olhos vêem hoje eclipsada 
A luz, por quem o campo florescia ? 
Traidor cortando a minha própria espada 
Aquella vida, por quem eu vivia, 
Aquelle alento, de que me alentava ? 
A mim me temerei como inimigo, 
De mim fogindo, por estar comigo. 



Passe meu coração a espada dura, 
E do golpe cruel sinta os rigores. 
Chorando as impiedades da ventura, 
As venturas terei por dissabores : 



i32 Soror Madalena da Gloria 



Viva morrendo, pois a dôr se apura, 
Se a vida se alimenta só das dores *, 
Mas oh sorte tirana, infausto dia ; 
Que era não matar-me, mostras ser impia ! 



Gemendo e suspirando os dias passe 
Nas sombras de meu pranto tenebrosas, 
Desde que o sol espira até que nasce, 
Só lagrimas acerte lastimosas; 
E o mesmo ferro o peito me trespasse, 
Que a cinzas reduziu as bellas rosas : 
Acabe ao ferro aqui da espada agora 
Vida, que á própria vida foi traidora. 



Mas viva, porque ás mãos do sentimento 
Louco, furioso, desgraçado e triste 
A vida dure no rigor violento 
Da dôr, a que meu peito mal resiste; 
Esquivo me será meu pensamento, 
Que em retratar-me o mal sempre persiste, 
Para que acabe a vida idolatrando. 
Quem amando viveu, e morre amando. 



Esse planeta, que radiante gira 
Da esfera quarta o paiz formoso, 
Topasio ardente em campo de safira, 
A meus olhos será caliginoso, 
Vendo que dura um sol, quando outro espira 
A golpes do punhal mais rigoroso: 
Assim lamentarei a triste sorte. 
Que faz amarga a vida, e doce a morte. 



Poesias i33 



X 

A UMA SAUDADE 

SONETO 



Marsida, nesta ausência impaciente 
A vida vejo tão contraria á sorte, 
Que padeço na vida a mesma morte, 
Morrendo ao golpe de viver ausente. 



Tão estranho é meu mal, tão differente 
Na saudade, que sinto a magua forte, 
Que resistir não posso ao duro cone 
Por mais que o peito a resistência intente. 



Se dos suspiros fio o meu tormento, 
Já na força da dor desalentados, 
Nem para suspirar lhe vejo alento ; 



Em rios os meus olhos transformados, 
E em tormenta desfeita o pensamento, 
Só na fineza salvo os meus cuidados. 



XI 
DECIMA 

A minha cega porfia 
Buscou entre nada ao nada, 
A minha idéa enganada 
Nada achou, emquanto via ; 



i34 Soror Madalena da Gloria 



Acabou-se em nada o dia, 

Que nada trouxe comsigo ; 

Com que a mim mesmo me digo, 

Como este nada te admira, 

Se o que o mundo mais suspira 

E nada, e nada o que sigo ? 



DO « ORBE CELESTE » 



I 

A SÃO VICENTE 



[Resistindo os martírios^ e morto, quando o lançam em 
uma cama de rosas]. 

SONETO 



Entre as rosas Vicente está rendido, 
De seu sangue na purpura banhado, 
Do sacrílego rei tão mal tratado, 
Como de amor na seta bem ferido. 



Na rigorosa dor adormecido, 
De Cristo a morte imita namorado, 
Que da fíneza o peito está picado. 
De tanto excesso vendose excedido. 



A cruz deseja, quando as flores toca^ 
E no florido leito desmaiando, 
A vida engeita, e a Jesus invoca : 



O rigor dos tormentos suspirando, 
A branda cama a morte lhe provoca, 
Que a vida alenta em padecer amando. 



i36 Soror Madalena da Gloria 



II 
VIZÃO DO APOCALIPSE 

SONETO 

Ao mais alto dos ceos foi remontado 
João esse discípulo querido, 
E no que vê o espirito influido, 
Os termos não acerta de admirado. 



Em tão altivo sólio sublimado, 
A uma mulher vê, cujo vestido, 
Era do sol o resplendor luzido, 
E o cândido da lua o seu calçado. 



De estrelas a cabeça coroava 
Tão luzida, tão pura, e refulgente. 
Que nela o mesmo Deus se retratava ; 



Desta vizão a águia mais ciefite, 
Que era Maria entende, pois mostrava, 
Ser a todos os astros preeminente. 



Ill 
SONETO 

Rompe o raio da nuvem a sombra adusta, 
Corta o ar, arruina, e ameaça, 
E antes que. em cinza a chama se desfaça, 
Arde o mar, treme a terra, o ar se assusta. 



Poesias 187 



Alterando a esfera a ira injusta, 
O Deus tonante seu escudo embraça, 
Cuida que a terra a iras despedaça, 
Todo o incêndio supondo pena justa. 



Barbara a quem governa o lume eterno, 
Vendo do cego Deus o errado engano, 
De esforço armada com amor interno. 



Seu poder exercita soberano, 
Os raios prende atropelando o inferno, 
O fogo apaga do rigor tirano. 



IV 
MORTE DE RAQUEL 

[Do poemeto Jacob e Raquel] 



Cresce em Raquel a dor, cresce a fadiga, 
O alento desmaia, a vóz se turba, 
A respiração cansa, a ânsia obriga. 
Porque a vista dos olhos se perturba. 
Da vida a alma já se desobriga, 
A morte chega, e tudo se conturba, 
E rendendo Raquel á morte a vida, 
Nasceu José a prenda mais querida. 



Retratada no pálido da morte. 
Da flor tão despojada a pompa bela, 



i3S Soror Madalena da Gloria 



Rendida a rosa no grosseiro corte, 
Eclipsada nas sombras a estrela, 
Retratam de Raquel a triste sorte, 
A morte sendo já debuxo dela, 
Deixandoa desengano dos amores, 
Se antes inveja tinha dado ás flores. 

Jacob que ad sentimento nos combates 
Em Raquel sepultada tinha a vida, 
Vendo de seu amor tristes remates, 
O golpe chora em dor tão desabrida, 
Da cruel saudade nos rebates, 
Sua alma assim se queixa enternecida. 
Sol, estrelas, luzeiro, noite e dia. 
Morreu Raquel, morreu minha alegria. 

Pastores, que habitais por esses montes, 
Serranas, que guardais o manso gado, 
Vede meus olhos desatadas fontes. 
Ouvi de meu suspiro o triste brado. 
Que cultos arrastando os onzontes. 
Até o mesmo sol vejo enlutado. 
Anoiteceu a luz, cerrou-se o dia, 
Ai Raquel, adorada companhia. 

Vinde ver desmaiada a formosura. 
Morta a beleza, que minha alma adora, 
Amortalhada a luz na sombra escura, 
Macilento o candor da bela Aurora, 
Vereis de um fino amor a fé mais pura, 
O coração desfeito no que chora. 
Hoje a morte me fora só socorro, 
Morta Raquel, também com ela morro. 

O' campos verdes em quem tive atento. 
Nos favores as ditas desejadas, 



Poesias iSg 



Hoje verdugos são do pensamento, 
As horas, que já foram tão amadas. 
O campos de Belém, duro tormento ! 
Que em vós vi as venturas desgraçadas, 
Já morta a vida, de que me animava, 
Já sem Raquel, a quem eu mais amava. 

Como fugis de ouvir meus ais sentidos, 
Rios, aves, pastores, plantas, flores ? 
Se a compaixão vos move internecidos, 
Minha dôr escutai em tais rigores. 
Desfeito o coração entre os gemidos, 
Morta Raquel emprego a meus amores, 
O' infelice noite ! O' triste dia ! 
E o eco só responde, triste dia ! ■ 

Mais quisera dizer, porém o pranto 

Suprirá quanto a dôr me dificulta, 

Que a pena embarga em sentimento tanto. 

Vida que com Raquel já se sepulta, 

E em tanta magua, em tão mortal quebranto, 

A vida só a morte me consulta; 

Ài infeliz destino ! Ai pedra fria ! 

Ai eclipsada luz ! Ai triste dia ! 



PRANTO DOS CATIVOS HEBREUS 
SOBRE OS RIOS DE BABILÓNIA 

A' margem desses rios , 
De Babilónia os Ebreus sentados. 
Choram os desvarios 
Da sorte, e dos suspiros já cansados, 



140 Soror Madalena da Gloria 



E em dôr tão inclemente, 
Ausências de Sião cada qual sente. 

Jerusalém amada, 
Q'impressa estás nos bronzes da memoria, 
E essa gloria passada 
A dôr presente lhe desmente a gloria, 
Que em tantas aflições, 
E a saudade vóz, eco os grilhões. 

Aqui da aurora bela 
A luz sempre entre sombras aparece, 
Que em tão contraria estrela, 
Só para o pranto o dia é que amanhece, 
E as lagrimas correntes, 
De«?ses rios engrossam as enchentes. 

De ouvir o pranto triste, 
O mesmo sol se nega ao claro dia, 
Que ás maguas só resiste. 
Quem tem por alma a fera tirania ; 
E o sol já eclipsado, 
Da nossa dor se mostra magoado. 

Sepulta a flor mimosa, 
O prado de tristezas revestido, 
E desmaiada a rosa 
Do carmim troca em lutos o vestido ; 
Que ouvir suspiros tantos, 
Até no insensível são quebrantos. 

Lastimado o jacinto. 
Aos nossos os seus ais acompanhando, 
Com um ai, diz, já sinto 
Vossa dôr o meu peito penetrando-, 
E o que ás flores indina, 
Ao coração humano não inclina. 

Os trinados clarins. 
Que tocados aos orbes suspendião, 
E com gloriosos fins. 
Só a Deus afinados 'aplaudiao. 
Quando prezos nos vimos. 
Na terra alheia o pranto só ouvimos. 



Poesias 141 



Nossa fortuna ingrata, 
Quando o grilhão arrasta a liberdade, 
Mais afligir-nos trata, 
Porque dos generais a crueldade, 
Que contemos disseram, 
Com que os rios nas lagrimas cresceram. 

Como triumphantes mandão. 
Que os hinos de Sião doces cantemos, 
Com impiedade andão ; 
Mas á cadeia atados, respondemos 
Como na alheia terra. 
Mais cantaremos que o que a dor encerra. 

Alegres da vitoria, 
M^ta, derruba, abraza, vão dizendo, 
Dure só por memoria 
A dôr que no seu mal vão padecendo •, 
Não deixe vossa espada 
Pedra, que não desfaça em pó, e em nada. 

Com acção arrogante 
Desprezando suspiros lastimados, 
Com que na dôr constante 
Pedaços d'alma vimos separados, 
Os peitos nos rasgavão, 
Quando os filhos dos braços nos tiravão. 

Dos cabelos levados 
Nas pedras as cabeças lhe partião, 
E os corações quebrados 
Dos pais, porque valer-lhe não podiam. 
Ficava em pezar tanto, 
Partida a alma de escutar seu pranto. 

Ali a tirania 
No rigor apurando o soffrimento, 
O coração partia 

Dos filhos, e mulher vendo o tormento, 
E dividida a alma. 
Não sei em tanta dôr qual leva a palma. 

Mas ai, que a sorte trata, 
Seu favor dando ao bárbaro Caldeo, 



142 Soror Madalena da Gloria 



E em aliança grata 

Contra nós convocando ao Idumeo, 

Deixar na injusta guerra 

A cidade, e seus muros posta em terra. 

De Babilónia os muros 
Vitoriosas adornem as bandeiras, 
Que se hoje aos golpes duros, 
Cativos nos vem já suas ribeiras, 
Lá chegará o dia, 
Que o ceo castigue a barbara ousadia. 

Quando trocada a sorte, 
Essas altivas maquinas desfaça. 
De nossa espada o corte, 
E o seu pezar ao nosso satisfaça \ 
Sintam como sentimos, 
Ver aos seus filhos, como os nossos vimos. 

Em ti Rei Soberano, , 
Que em três dedos sustentas todo o mundo. 
Neste rigor tirano 

Toda a esperança do remédio fundo, 
E no amargo desterro. 
Teu nome invoco ao som do duro ferro. 



VI 

A UMA FORMOSURA 
REBUÇADA EM UM MANTO 

DECIMA 

Filis, dessas luzes belas 
A sombra apartai, porque 
Dos astros injuria é. 
Que a sombra assombre as estrelas ; 
Se o sol se está vendo nelas, 



Poesias 143 



Sem luz o dia deixais. 
Quando na nuvem ocultais, 
Fazendo negaça á luz 
O resplendor que produz, 
Essa nuvem se a rasgais. 



VII 
QUEIXAS DA SORTE 

SONETO 

Aqui de meu pezar na companhia. 
Minhas maguas ouvindo este penedo, 
De tão cruel fortuna no alto enredo, 
Pára sentido, e desmaiado o dia. 



De tão continuas maguas a porfia, 
Quebra já o silencio a meu segredo, 
Se até aqui de queixar me tive medo. 
Diverso ar corre agora que corria. 



Perdida está da sorte a esperança, • 
E se nada aventuro no queixume, 
Porque ham de ser cautela os desenganos ? 



Fiz em falsas promessas confiança, 
Porém quando a fé nelas mais presume, 
No mesmo que presume acha os enganos. 



í 



DO « REINO DA BABILÓNIA » 

I 

DECIMAS 

Nos delírios de um cuidado, 
Nas anciãs do mal, que sinto, 
Que dura a vida desminto, 
A' dôr o alento prostrado : 
Remédio difficultado 
Tam grande febre accendeu, 
Que chego a duvidar eu 
Nesta rigorosa calma, 
Se tenho o fogo por alma, 
Se alma ao fogo calor deu. 



Esta doença mortal, 
A que o alento desmaia, 
Para vida mal se ensaia 
Se se atêa no immortal : 
Sétta de veneno tal 
Tanto o peito me maltrata, 
Que os sentidos, que arrebata 
Mal destinta a fantasia, 
Do remédio me desvia, 
Tendo por vida o que mata. 



. Do pulso as intercadencias 
,Te informem do meu perigo ; 
Porque do mal, que não digo. 
Já me accusam as evidencias : 
Medico de taes sciencias 



Poesias 145 



É que meu mal necessita, 
Que com piedade infinita, 
Quando a dôr mais desconheço, 
Me cure o de que adoeço, 
E curar-me não limita. 



De meus livres pensamentos 
Perturbados os sentidos, 
Para o remédio perdidos, 
Vivos só para os tormentos ; 
Applique os medicamentos 
Quem á mesma natureza 
Deu leis, e com inteireza 
Este arruinado edifício 
Restaure por beneficio 
De sua immortal grandeza. 



II - 
DECIMAS 

A que fado deshumano 
Me condemna teu rigor. 
Se mais que a settas de amor 
Vens a matar-me tirano: 
Já que humano 
Por um vil barro grosseiro 
Trocaste o sceptro primeiro, 
E do mesmo manancial, 
Puro cristal. 
Sendo mar foste ribeiro. 



Pois de minha antiga historia 
Queres, que os sucessos diga, 



i4t> Soror Madalena da Gloria 



E tanta mortal fadiga 

Mais me atormente a memoria 

Seja gloria 

Tua este rigor, que passo, 

Pois daquelle infeliz caso, 

Que em fel o néctar trocou, 

Dizem quebrou. 

Porque era de» barro o vaso. 



Aquelles nobres princípios, 
A que amor principio deu, 
E de alta esfera desceu 
Para amantes sacrifícios, 
Pois propicies 

Quereis que favor me dêem, 
E' justo vejais, que tem 
A minha original miséria 
Tal matéria. 
Que vos toca a vós também. 



Naquelle humano pomar 
De quatro rios regado. 
Donde em cristaes desatado 
Se admira a enchentes um mar, 
Foi buscar 
Vossa poderosa mão 
Um barro com tal senão, 
Que dando-lhe nobre ser, 
Quis perder, 
De fíno o alto brazao. 



Se de amor nas fínas dores, 
Acreditais mais nobreza, 
Olhae, que em mim a fraqueza 
Já vem de vossos maiores : 



Poesias 147 



Seus errores 

Pela falsa formosura 

De uma maça mal madura 

Quiseram, faltos de lei, 

Que seu Rei 

Vista a mesma vestidura. 



A vossa voz deu o ser 
Ás creaturas mais formosas, 
Vestio de purpura as rosas, 
Fez os campos verdecer : 
Resplandecer 
Esse altivo firmamento, 
E a mim o barro fundamento 
Deu, porém com um ser tam nobre. 
Que por pobre, 
Vos retrata o nascimento. 

Essa azul arquitectura, 
Essa aurora de escarlata, 
Essas citharas de prata, 
Do mar essa formosura ; 
Bem segura. 

De obra vossa presumindo, 
O humano ser competindo. 
Que ao barro levou a palma. 
Mas a alma, 
Vosso alento a foi unindo. 



Desses campos a belleza, 
Dos astros o luzimento, 
O cristalino elemento. 
Dos orbes toda a grandeza : 
Com inteireza 

Se renderam, mas de modo, 
Que ainda tendo o império todo 



148 Soror Madalena da Gloria 



Mostrou, na humana fraqueza, 

Tal vileza, 

Como formada do lodo. 



Com rendida sugeiçáo 
Essas volantes plumagens, 
Oftereceram vassalagens, 
Áquelle primeiro Adão •, 
E a oblação, 
Tanto seu ser sublimou, 
Que comvosco o equivocou, 
Mas de tam fraco artificio 
O edifício, 
Que logo se arruinou. 

Se quando do barro á massa 
Se uniu vossa fortaleza, 
Tomastes sua fraqueza 
Por brazão da vossa casa, 
E se enlaça 

Um ser divino, e humano 
Nesse peito soberano, 
Dai, como humano, desculpa 
A uma culpa. 
Que se originou do engano. 

Este pó, que se desfaz, 
Fumo, que desapparece. 
Nada, que se desvanece. 
Terra, que se contrafaz, 
Não me traz 
Em susto tam evidente, 
Que ainda vendo o mal presente, 
Me tema contraria a sorte. 
Se até á morte. 
Padecestes igualmente. 



Poesias 149 



III 
DECIMAS 



Se por dar lustre aos pezares 
Vossas lagrimas teimosas 
Correm por margens de rosas ; 
Porque não cabem nos mares : 
A submergir esses ares 
Subiram rios crescendo, 
E certo o naufrágio sendo, 
A fineza deslustrais, 
Porque podendo amar mais, 
Deixareis de amar morrendo. 



Deixai, que o mar se dilate, 
Que o rio se precipite. 
Que o vento se fortifique, 
Que em agua a nuvem dezate, 
Sem que vós neste combate 
Bailas de neve esgrimindo, 
Que as estrellas vão fenndo. 
De neve, e fogo tomeis 
As armas, com que offendeis, 
De amor os raios cobrindo. 



IV 
OITAVAS 

Logo o tempo se altera, e o ar ferindo 
Do firmamento em torres levantado. 
Seu curso altera, no furor bramindo, 
E o mar em brancas serras transformado 



Soror Madalena da Gloria ^ 



As negras asas Bóreas sacudindo 

Da parda nuvem o sol deixa eclipsado, 

E em chuveiros, que ao ceo o vento cresce, 

Dá vista o ceo, e o mar desapparece. 



Em fogo ardente o mundo se abrazava, 
Em noite escura o ar se confundia, 
A negra nuvem mares desatava, 
O alto monte um Etna parecia : 
Do sol a luz no fumo se enlutava, 
Sepultado na sombra o alegre dia, 
Donde em balas de fogo a ira ardendo 
O ceo e a terra estava combatendo. 



Settas de lume o ar atravessando, 
Ao cristalino mar descem ferindo; 
Que a esse globo celeste ameaçando, 
De pavor as estrellas vam cahindo : 
E o resplendor no rio sossobrando, 
A agua ali do fogo vai fugindo : 
Temeu o ceu, e os orbes estrellados 
Seus fixos eixos sentem arruinados. 



Os cavallos do sol precipitados 
Do ceo apagam o esplendor flammante, 
Que do furioso vento ali arrojados, 
Liquida urna dam á luz radiante: 
No vivo fogo os campos inflamados, 
Cada planta parece que é um montante, 
E o ecco, que no monte vai ferindo 
Mostra, que da crueldade vai bramindo. 



A mansa rez, que sobre a relva passa 
Do rigor do estio a ardente chamma, 



Poesias i5i 



Ao susto geme, do temor embassa, 
Vendo em agua afogada a verde grama ; 
Busca no monte abrigo, e se embarassa, 
Mares pisando na crescida rama, 
E alli por ondas o cristal crescendo, 
Este alterado mar andam bebendo. 



Do roble mais antigo desfolhada 
A verde louçania, que o engrandece ; 
Avisos dava a ave celebrada, 
Que os troncos busque, que o perigo cresce ; 
A fera foge da caverna amada, 
E o rio ao mais profundo logo a desce, 
E Neptuno, que rege o mar salgado. 
Crê, que lhe foi tributo dedicado. 



Neste mortal perigo desmaiado 
Ao alto firmamento recorrendo. 
Rendido appela o coração prostrado, 
Da divina justiça eífeito crendo : 
As settas, que dispara o arco irado. 
De quem mar, ceo, e terra vam tremendo, 
A Deus peço, que veja a viva magua. 
Que alma me enche de fogo, os olhos d'agua. 



Logo a ira applacando o rijo vento, 
Que á terra ultimo estrago ameaçava. 
Preza de alto poder muda de intento, 
Que em branda paz já a fúria transformava 
Sereno o ar se mostra em um momento. 
Que o resplendor do sol já alumiava : 
Oh poder do poder, quanto te estendes. 
Se o mar, o ceo, e a terra tudo prendes ! 



iSz Soror Madalena da Gloria 



Das cadeias de um temor ' 

Bem limado a serro duro, ! 

Desatar-vos já procuro \ 

Mártir não, mas confessor : ] 

Se vos não prendeu amor, 1 

E de seus tiros zombais, | 
Para que vos retirais, 
Quando é da vida coroa 
Vida boa ? 



Se quando a aurora amanhece, 
Entam de Morfeu nos braços, 
Apertar do sono os laços, 
E' o que mais se appetece, 
Gomo este bem desconhece 
Vosso disvelo, e cuidado. 
Se no mal de disvelado 
O descanso vos entoa 
Vida boa ? 



Quando dessa ardente esfera 
O sol sua luz retira, 
E em sepulcro de safira 
Renascer brilhante esfera 
A flor, a ave, e a fera, 
Seu sossego ambicionando; 
Mudamente estam clamando 
A' flor, á fera, á pessoa 
Vida boa. 



Como vós com melhor alma, 
Entre aflicções do cuidado, 



Poesias i53 



Do futuro, e do passado 
Teceis vossa dura palma : 
Negando em custosa calma 
Os ouvidos á fortuna. 
Que em occasião opportuna, 
A vosso favor pregoa 
Vida boa. 



Deixai sustos, deixai medos, 
Que o divertir é viver ; 
Quem mais alivios tiver, 
Da sorte piza os enredos 
E sam do inferno arremedos 
Os laços do sofrimento. 
Em que apurado o tormento 
Não deixa ouvir, quem entoa 
Vida boa. 

Se sois Nayade, ide aos mares, 
Se sois flor, apparecei, 
Se estrella, resplandecei ; 
Se Pomona, ide aos pomares •, 
E não cudeis em azares 
Da sorte, formosa, ou fea, 
Se é giganta, ou se é pygmea, 
Quando o gosto vos atroa 
Vida boa. 



VI 
DECIMA 

Se meu peito ainda ferido 
Iniejra posse te deu, 
Gomo posso aceitar eu 



i54 Soror Madalena da Gloria 



Teu coração repartido : 
Mas se de amor deffendido 
Me prometer nova lei, 
Daquella antiga, que dei, 
Já mudada a dura fragoa, 
Nesta taboa em sangue, e agua 
Novo artigo tresladei. 



VII 
DECIMA 

Pois CS luz de ceo, e terra, 
Que á terra, e ceo luzes deu 
Deste coração, que é teu 
Escuras sombras desterra : 
Estes nadas, que em si encerra, 
Vapores da terra são. 
Que desluzida a oblação 
Deixam, se a não fortifica 
Essa mão, que sabia applica 
Ardor ao meu coração. 



VIII 
OUTRA 

Esta, que vedes correr, 
Já de Antioquia foi mimo, 
Hoje só tem por arrimo 
Do que foi o seu temor: 
Hontem as pérolas pizou, 
Das esmeraldas fazendo 



Poesias i55 



Alcatifa, porém vendo 
De mortal a duração, 
Para mais alto brazão 
Viveu Pelagia morrendo. 



IX 
SEXTINAS 

Baste, não mais de engano, 
Cessem as apparencias fabulosas, 
Que causaram meu dano 
Quanto mais bellas sim, mais enganosas, 
Deixando em dor interna 
Por uma breve vista pena eterna. 



Se sam do mundo as glorias, 
Que em um momento só desapparecem, 
ídolo das memorias. 
Que voa fumo, quando luz parece. 
Como a Tântalo vejo 
Morrer o logro em meio do desejo. 



X 

DECIMA 

Meu cuidado disvelado 
Encontrar- vos procurava ; 
E porque em mim vos buscava 
Me enganei com o meu cuidado 
Já de melhor luz guiado. 
Porque foi vossa esta luz, 



t56 Soror Madalena da Gloria 



Vos achou de amor na cruz 
Os rigores padecendo, 
E amor vosso extremo vendo 
Novo extremo em mim produz. 



XI 
OITAVA 

Do sol essa brilhante luz formosa, 
De que a noute foge, e o dia cresce, 
Bordando de ouro a maquina lustrosa, 
Quando a dar vida ás flores amanhece, 
Tocha do ceo, fogueira luminosa, 
Que na estrelada esfera resplandece, 
Se o prado fertiliza, e seus primores. 
Quem duvida, qiae o sol excede ás flores. 



XII 
OITAVA 

Do prado estrella angélica ser preza, 
Mimo da graça, emulação de Flora, 
Que ao mesmo ceo retrata na belleza, 
Roubando a candidez da branca aurora ; 
Fmezas de Medóro aqui despresa, 
Que da própria isenção só se namora, 
Se resiste de amor á seta dura 
Mais que a do sol, da flor é a formosura. 



Poesias i57 



XIII 
OITAVAS 



Já, Senhor, despertaram meus cuidados 
Em tanta ingratidão adormecidos ; 
Nasceram a querer-vos destinados, 
E em cega idolatria os vi perdidos; 
Vossa mesma fineza lhe deu brados, 
Porque a tanto favor agradecidos, 
Confesse o coração com rendimepto 
Que é de amor vosso amor doce sustento. 



Dos apparentes bens a prisão dura, 
Que o gosto captivavam com violência. 
Venceu a vossa luz a sombra escura 
Para maior victoria da clemência : 
Constante a rainha fé vos assegura 
De Babilónia ás leis a resistência. 
Que é certo pouco faz quem obedece, 
Se chegando a vos ver o mais lhe esquece. 



Primeiro se verá da quarta esfera 
Apagado o monarca refulgente. 
Que no palácio ethereo reverbera 
A luz, que os montes doura no oriente : 
Que meu amor vos falte, quando espera 
Que acendais vós com fogo o fogo ardente, 
Que o peito, que das chammas tem enveja 
Um coração de chammas ter deseja. 



Venham formosos lirios, venham rosas, 
Maçãs, e jasmins venham, que ferida 



i58 Soror Madalena da Gloria 



Minha alma está das setas amorosas, 
Que quanto mais me ferem, me dam vida 
Cubram-me de assucenas, que cheirosas 
Fragancia vam inspirando á fé unida, 
Arda o peito no fogo, em que suave 
Imite o coração a immortal ave. 



índice dos « EXTRACTOS » 

PUBLICADOS NESTE VOLUME 
COM A INDICAÇÃO DOS LOCARES RESPECTIVOS DOS ORIGINAIS. 



SOROR VIOLANTE DO CEO 

Sonetos : 

I. Pag. 3 — Das « Rimas Varias », pag. 12. 

II. Pag. 4 — Ibid , pag. 21. 

III. Pag 4 — Ibid., pag. 22. 

IV. Pag 5 — Ibtd , pag. 23. 

V. Pag 6 — Ibid , pag 25. 

VI. Pag. 6 — Ibid , pag. 1 1 

VII. Pag. 7 — Ibid , pag. 26. 

VIII. Pag 8 — Ibid., pag. i3. 

IX. Pag. 8 — Ibid, pag. 14. 

X. Pag. 9 — Do « Parnaso Lusitano », I, pag. 53. 
XI Pag. 10 — Ibid., pag 73. 

XII. Pag. II — Das « Rimas Varias », pag. 10. 

XIII. Pag. II — Ibid., p^g 16. 

XIV. Pag. 12 — Do « Parnaso Lusitano », I, pag. 74. 

XV. Pag i3 — Ibid., pag yS 

XVI Madrigal, pag 14 — Das « Rimas Varias », pag. 67. 
XVII. Decimas, pag i5 — Ibid., pag. 92. 
XVIII Pag. i5 — 7Í.ÍÍ,, pag. 93. 

XIX. Pag. 16 — Ibid., pag. 99. 

XX. Pag. 17— Ibid., pag. 101. 

XXI. Pag. 18 — Ibid., pag. io3. 

XXII. Mote e Glosa, pag 19 — Ibid, pag. 112. 

XXIII. Cançam, pag. 20 — Do « Parnaso Lusitano », 
pag. 112. 

XXIV. Elegia, pag. 22 — Ibid., pag. i85. 

XXV. Epistola, pag. 25 — Ibid., pag. 202. 



i6o índice dos « Extractos • 



SOROR MARIA DO CEO 

I. Alguns trechos em prosa : 

A andorinha á Vigaria da casa, pag. 3 — Das « Aves 

Ilustradas, pags. 17-24. 
A chamariz á Vigaria do coro, pag. 38 — Jbid , pags, 

27-30. 
O rouxinol ás Sacristãs, pag. 41 — Ibid., pags. 61-74. 
O palio á Porteira — pag. 5o — Ibid., pags. 83-86. 
A pega á Escrivã — pag .53 — Ibid , pags. 97-103. 
A rola á Celeireira — pag. 5y — Ibid., pags. loS-iog. 
O ganso á Provisôra — pag 60 — Ibid , pags. ii5-i26. 
A coruja á Roupeira — pag. 67 — Ibid , pags. 1 5o- 160. 



II. Versos : 

I. Mote e glosa. pag. 75 — De nA Preciosa », pag. 42. 
lí. Pag. 76 — Ibid., pags. 86-88. 

III. Pag. 78 — Ibid, pags. 134-1 36. 

IV. Pag. 80 — Ibid., pags. i5i-i52. 

V. Pag. 81 — Ibid., pags. 173-175. 

VI. Pag 83 — Ibtd , pags. igi-igi. 

VII. S. Paulo Eremita, pag. 86 — Ibid , pags. 238-245. 
VIII Dorothea e Theophilo, pag. 92 — Ibid., pags. 348- 

353. 
IX. Sobre as palavras de P. António Vieira, pag. 96 — 
Ibid., pags. 353-360. 



I. Desmayos, pag. 104 — Dos « Enganos do Bosque a, 
pags. i26-i3i. 

II. Gemidos, pag. 108 — Ibid, pags. i3i-i36. 

III. Significações, etc. Jasmim, pag 11 1 — Ibid., pag. 200. 

IV. Narcizo, pag. 112 — Ibid, pag 2o5. . 

V. Madre-silva, pag. 112 — Ibid, pag. 211. 

VI. Angélica, pag. 1 13 — Ibid , pag. 212. 
VII Ginjas, pag. ii3 — Ibtd, pag. 220 

VIII. Pêssego, pag. 114 — Ibid, pag. 226. 

IX. Lima, pag. 1 14 — Ibid., pag. 229. 

X. Avelãs, pag. ii5 — Ibid, pag. a3i. 



índice dos « Extractos » i6i 



XI. Camarinhas, pag. ii5 — Ibid , pag. 234. 
XII Manjerona, pag. 116 — Ibid, pag. 239. 
XIII. Alecrim, pag. 1 16 — Ibid, pag. 241. 



I. Sátira, pag. 1 17 — Das « Obras Varias e Admiráveis », 
pags. 121-124. 

II. Mortal doença, pag. 119 — Ibid., pag. 124. 



SOROR MADALENA DA GLORIA 

I. Mote e glosa, pag. 1 23 — Dos « Brados do Desen- 
gano TO, vol. I, pag. 167. . 
IL Outro, pag. i23 — Ibid ^ pag. 170. 

III. Outro, pag. 1 24 — Ibid , pag. 1 79. 

IV. Outro, pag. i25 — Ibid , pag, 180. 

V. Oitavas, pag. 126 — Ibid., pag. 280. 

VI. Oitavas, pag. 127 — Ibid., pag. 3oi. 

VII. Oitavas, pag. 128 — Ibid , vol. 11, pag. 141. 
VIU. Canção, pag. 129 — Ibid., pag. 174. 

IX. Oitavas, pag. i3i — Ibid., pag 189. 

X. Soneto, pag. i33 — Ibid, pag 233. 

XI. Decima, pag. i33 — Ibid., pag. 245. 



I. Soneto, pag i35 — Do « Orbe Celeste », pag. 8! 

II. Outro, pag. i36 — Ibid , pag. 128. 

III. Outro, pag. 1 36 — Ibid., pag 2o5. 

IV. Morte de Raquel, pag. 187 — Ibid., pag. 207. 

V. Prantos dos Cativos, pag. 139 — Ibid., pag. 275. 

VI. Decima, pag. 142 — Ibid , pag. 293. 
VIL Soneto, pag. 143 — Ibid., pag. 3oi. 



I. Decimas, pag. 144 — Do « Reino de Babilónia », 
pag. 39. 

II. Decimas, pag. 145 — Ibid., pag. 68. 

III. Decimas, pag. 149 — Ibid., pag. 92. 

IV. Oitavas, pag. 149 — Ibid., pag. 99. 



i62 índice dos « Extractos » 



V. Pag. i52 — Ibid., pag. 122. 

VI Decima, pag. i33 — Ibid., pag. 149. 

VII Outra, pag i54 — Ibid, pag. i63. 
VIII. Outra, pag. 164 — Ibid , pag. 201. 
IX Sextinas, pag i55 — Ibid, pag 209. 
X, Decima, pag. i55 — Ibid., pag 228. 
XI Oitava, pag. i56 — Ibid , pag. 255. 

XII. Outra, pag. i56 — Ibid., pag. 256. 

XIII. Oitavas, pag. 157 -^ iíi/á, pag. 261. 



FIM. 



á. 



.^'^' 



'^- 




MENDES DOS REMÉDIOS 



História da Literatura Portuguesa desde as origens até á actua- 
lidade, 4.* ed., I vol. brochado, iíí)3oo Cartonado.. . 1^^600 
Introdução á História da Literatura Portuguesa, 3* edição, muito 

melhorada 900 

Subsídios para o estudo da História da Literatura Portuguesa : 
I. — fidalgo Aprendiz, de D. Francisco Manoel de Mello. 200 
II. — Poesias inéditas de D. Thomás de Noronha, poeta saty- 

rico do século xvii Soo 

III. — Lusíadas (3.* ed. anotada, para as escolas), bro- 
chado, Soo. Cartonado 600 

< IV. — Foguetario ( poema heroi-comico ), de Pedro de Aze- 
vedo Tojal 3oo 

V. — Vida do Grande D. Quixote de La Mancha e do gordo 

Sancho Pança ( opera jocosa ), de António José da 
Silva ^ Soo 

VI. — Guerras do Alecrim e Mangerona (opera joco-seria ), 

de António José da Silva 200 

VII. — Sentenças de D. Francisco de Portugal, i." Conde de' 
Vimioso, seguidas das suas poesias, publicadas no 

« Cancioneiro de Garcia de Rezende » 3oo 

VIII a X. — Consolaçam ás Tribulaçoens de Israel, por Samuel 

Usque, 3 vols ^00 

XI. — Obras de Gil Vicente ( Tomo primeiro ) Soo 

V ' XII. — Memorias de José da Cunha Brochado 2"'0 

XIII. — Chronica do Infante Santo b. Fernando 400 

XIV. — Chronica do Condestabre de Port.^gal Dom Nuno Alvarez 

Pereira Soo 

XV. — Obras de Gil Vicente ( Tomo segundo j Soo 

XVI. — Escritoras doutros tempos 400 

Philosophia elementar, 1 vol. cart 1 ^lOO 

Os Judeus em Portugal, 1 vol. broch 1 íí>ooo 

Os Judeus Portugueses em Amsterdam, 1 vol. broch 700 

Sousa Martins e a Serra da Estrella, ( Exgotado ). 

Cartas inéditas de El-Rei D. Pedro V, ( Exgotado). 

Uma Biblia hebraica da Bibliotheca da Universidade de Coimbra, 

folh. ( F.xgotado ). 
Moedas romanas da Bibliotheca da Universidade de Coimbra 

( ensaio de catalogo ) 200 

As Horas de Nossa Senhora da Bibliotheca da Universidade de' 

Coimbra, i folh. 1 Exgotado). 

Philomena de S. Boaventura 200 

Carta exhortatoria aos Padres da Companhia de Jesus .... 200 



PQ Mendes dos Remédios, Joaquim 

9153 Escritoras doutros tempos 

M4 



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